MIA

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O sol já estava alto, brilhando sobre o acampamento, quando eu avistei um grupo desajeitado tropeçando pelo gramado perto da fogueira central. Blake, Ethan e Anny estavam com os braços cheios de engradados de cerveja, as roupas bagunçadas, e os cabelos desgrenhados como se tivessem saído de uma tempestade — ou de algo muito pior. Eles riam alto, ofegantes, e jogaram os engradados no chão, colapsando ao redor deles.

"Ok, o que foi isso?", perguntei, cruzando os braços enquanto me aproximava. Eu podia sentir o calor subindo pelo meu rosto. Eles estavam claramente se divertindo, mas havia algo estranho na cena. Parecia bom demais para ser verdade, quase... forçado.

Ethan foi o primeiro a me notar. Ele levantou o rosto, ainda ofegante, com aquele sorriso de "não me arrependi de nada" que ele sempre fazia. "Mia! Você não acredita na nossa aventura."

"Ah, acredito, sim," falei com sarcasmo. "Vocês saíram escondidos, fizeram algo idiota e agora voltaram rindo como se estivessem em um filme de comédia barata. Me poupem. Isso foi o que aconteceu, certo?"

Blake deu de ombros, segurando uma garrafa de cerveja com o rótulo já meio rasgado. "Mais ou menos."

"Mais ou menos?", minha voz saiu mais alta do que pretendia. "Vocês poderiam ter sido pegos! Ou pior!"

"Calma, Mia," disse Anny, tentando soar conciliadora. "A gente deu conta. Foi só uma pequena confusão, mas está tudo bem agora."

Suspirei, mas antes que pudesse responder, Ethan interrompeu. "Quer uma cerveja? Prometo que essa não tem nenhuma briga incluída."

Olhei para ele, e o brilho provocador nos olhos dele quase me fez sorrir. Quase. "Vocês são impossíveis."

Eu precisava de um momento longe daquele caos. Enquanto eles abriam as garrafas e compartilhavam histórias sobre o que tinha acontecido — algo envolvendo identidades falsas, garrafas quebradas e correria —, decidi que precisava de uma pausa para respirar.

Na cabana, encontrei Sarah, que estava sentada em sua cama, lendo um livro. Quando ela me viu, colocou o marcador entre as páginas e me deu um sorriso. "Você está bem? Parecia meio irritada lá fora."

Joguei minha mochila no chão e me sentei ao lado dela, soltando um longo suspiro. "Eles são loucos, sério. Sairam para comprar bebida e voltaram como se tivessem sobrevivido a uma guerra."

Sarah riu. "Esse é o Ethan, não é? Ele tem um talento para transformar o caos em uma diversão."

Revirei os olhos. "Não só ele. Todo mundo parece estar se deixando levar. Menos eu, é claro."

Ela franziu a testa, colocando a mão no meu ombro. "O que realmente está te incomodando, Mia?"

Fiquei em silêncio por um momento. Sarah tinha essa habilidade de me desmontar sem nem precisar tentar. "Acho que é tudo, sabe? Eu sinto que não sou mais a mesma desde o que aconteceu. E agora... eu vejo todo mundo tentando seguir em frente, vivendo suas vidas. Até Ethan parece ter encontrado um jeito de ignorar tudo. E eu... eu não consigo."

Sarah assentiu, me ouvindo com atenção. "E tem mais, não tem?"

Suspirei, abaixando o olhar. "Tem. Eu sinto que o kyle — meu namorado — está me julgando. Ele quase nem quis vir para o acampamento. E agora eu fico pensando se ele realmente me vê como a mesma pessoa de antes. Às vezes eu acho que ele me culpa. Pelo que aconteceu. Pelo que quase aconteceu."

Sarah ficou quieta por um momento, antes de dizer: "E o Ethan? Você falou sobre isso com ele?"

Minha cabeça girou para ela tão rápido que quase machuquei o pescoço. "Ethan? Por que eu falaria isso com ele?"

Ela levantou uma sobrancelha, desafiadora. "Você sabe por quê. Ele entende o que você sente. E eu acho que você gosta da companhia dele mais do que está disposta a admitir."

Minha boca abriu para protestar, mas nenhuma palavra saiu. Ela tinha razão. Eu e Ethan nos conectamos de uma forma estranha e inesperada depois de tudo o que aconteceu. Ele fazia com que as coisas parecessem mais leves, menos sufocantes. Mas isso significava algo?

Antes que eu pudesse responder, Sarah me puxou para um abraço. "Você vai descobrir o que fazer, Mia. Mas por agora, tente aproveitar o verão, tá bem? Não se deixe prender pelas sombras do passado."

Assenti, mesmo sem saber se conseguiria seguir o conselho dela.

Mais tarde, enquanto caminhava sozinha perto do lago, senti uma brisa quente passar pelos meus ombros. O som da água batendo contra o deck deveria ter sido relaxante, mas algo parecia fora do lugar. Foi então que meus olhos captaram algo estranho perto das árvores.

Uma fita vermelha. Não era uma fita qualquer — era igual àquelas que a polícia usava para isolar cenas de crime.

Meu coração disparou. Olhei ao redor, tentando encontrar alguém, mas não havia ninguém. Quando me aproximei, percebi que havia marcas no chão. Pegadas que pareciam frescas.

Engoli em seco e dei um passo para trás, meu corpo inteiro tenso. O ar quente do verão agora parecia gelado contra minha pele.

Algo estava errado.

Muito errado.

Silêncio MortalOnde histórias criam vida. Descubra agora