Era para ser apenas mais uma noite patrulhando Blake, garantindo que ele não fizesse nenhuma besteira. Meu trabalho como agente de condicional já é uma bagunça, mas acompanhar um garoto como ele faz isso parecer um castigo divino. Em Green Valley, os adolescentes andam na corda bamba entre a rebeldia típica da idade e algo muito mais sombrio. Com três mortes em menos de seis meses, essa cidade perdeu a alma, e eu sou uma das poucas pessoas tentando manter o caos sob controle.
Quando percebi que Blake havia desaparecido do velório, sabia que ele estava tramando alguma coisa. O garoto tem um talento especial para encontrar confusão. Mas o que eu não esperava era que essa noite fosse mudar tudo.
Estacionei meu carro perto da fábrica abandonada, um lugar que os jovens usam para encontros secretos e festas ilegais. A cidade inteira sabe disso, mas parece que ninguém se importa. Eu, por outro lado, não posso ignorar. Blake está na minha lista de responsabilidade, e onde ele vai, eu vou.
Assim que saio do carro, ouço algo que me faz parar. Gritos. Não de diversão, mas de puro terror. Corro em direção ao prédio, a mão na arma que carrego no coldre. Não sou policial, mas em uma cidade como Green Valley, até agentes de condicional precisam estar armados.
Dentro da fábrica, os gritos cessam, mas o silêncio é ainda pior. A estrutura metálica range com o vento, e a luz da lua atravessa as janelas quebradas, criando sombras que parecem se mover sozinhas. Meu instinto grita que há algo errado.
— Blake! — chamo, minha voz ecoando pelas paredes vazias. — Se você estiver aqui, saia agora!
Nenhuma resposta. Avanço com cuidado, os passos ressoando no chão de concreto. Então, ouço vozes abafadas.
— O que diabos foi isso? — É uma voz masculina, nervosa, mas familiar. Blake.
— Não sei... mas não era humano. — Outra voz responde, dessa vez mais jovem e cheia de pavor. Luke, o garoto novo.
Acelero o passo e viro a esquina, encontrando os três — Blake, Anny e Luke — encostados em uma parede. Eles estão suados, ofegantes, e parecem ter visto um fantasma. Anny está agarrada ao braço de Blake, enquanto Luke segura algo na mão. Uma faca.
— O que está acontecendo aqui? — exijo, puxando minha arma e apontando para Luke.
— Não é o que você pensa! — Blake responde rapidamente, colocando-se entre mim e Luke. — Ele não fez nada.
— E essa faca? — pergunto, sem baixar a arma.
Luke levanta as mãos, mostrando que não tem intenção de atacar.
— Eu peguei isso de... de algo. Não era humano. Eu juro.
— Algo? — questiono, estreitando os olhos. — Vocês estão drogados?
— Não! — Anny intervém, a voz trêmula. — Nós vimos uma coisa... Não sei o que era, mas parecia... parecia do inferno.
Eu abaixo a arma, mas meu olhar ainda é duro. Conheço os adolescentes de Green Valley. Eles mentem, omitem e fazem de tudo para se livrar de problemas. Mas algo nos olhos deles me faz hesitar. Não é o olhar típico de quem foi pego no flagra. É medo puro.
— Onde isso aconteceu? — pergunto.
— Aqui mesmo, há poucos minutos — Blake responde, apontando para o corredor atrás deles. — Tinha um cara... ou uma coisa... com olhos negros. Ele segurava essa faca, mas Luke o fez recuar.
Olho para Luke, analisando-o. Ele parece assustado, mas firme. Segurando a faca com cuidado, ele me entrega o objeto. É uma lâmina longa e antiga, com inscrições que não reconheço gravadas ao longo do cabo. Ao tocá-la, sinto um calafrio que percorre meu corpo.
— Vocês têm ideia do que estão dizendo? — pergunto, tentando manter a calma. — Olhos negros? Um vulto? Vocês acham que era o assassino?
— Não era um assassino comum — Luke responde. — Era... outra coisa.
Antes que eu possa responder, um som metálico ecoa pela fábrica. Todos nós congelamos.
— O que foi isso? — Anny sussurra, agarrando o braço de Blake com mais força.
Eu levanto a arma, instintivamente me colocando na frente deles.
— Fiquem atrás de mim.
Caminho em direção ao som, cada passo mais lento que o anterior. Algo está nos observando, disso eu tenho certeza. Minhas mãos estão suadas, mas mantenho a arma firme.
De repente, um vulto emerge da escuridão, rápido como um raio. É alto, magro, e seus olhos... Deus, aqueles olhos negros e profundos. Não há dúvida de que eles estavam dizendo a verdade.
— Corram! — grito, enquanto aponto a arma e atiro.
O som do disparo reverbera pelas paredes, mas a coisa não recua. Ela avança em minha direção, os movimentos anormais, quase como se não estivesse presa às leis da física.
Blake puxa Anny pelo braço, e Luke hesita por um segundo antes de correr atrás deles. Eu continuo atirando, mas as balas parecem não fazer efeito.
Quando a criatura está a poucos metros de mim, ela para, inclinando a cabeça como se estivesse me estudando. Meu corpo está travado, o medo me paralisa. Então, ela sussurra algo em uma língua que não entendo.
Antes que eu possa reagir, ela desaparece na escuridão, tão rápido quanto apareceu.
— Srta. Mendez! — ouço a voz de Blake ao longe.
Eu me viro e corro na direção deles. O medo no rosto dos três é palpável, mas agora sei que é real. Seja o que for que está acontecendo em Green Valley, é muito maior do que imaginávamos.
— Precisamos sair daqui — digo, a voz firme apesar do terror que sinto. — E vocês precisam me contar tudo.
Enquanto saímos da fábrica, sinto que algo nos observa. E pela primeira vez em muito tempo, sinto medo de verdade. Algo está vindo, e eu não sei se estamos preparados para enfrentá-lo.
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Silêncio Mortal
HorrorEm uma cidade pequena marcada por segredos e tragédias, uma série de assassinatos brutais transforma o cotidiano em um pesadelo. Enquanto o medo se espalha, um grupo de jovens tenta desvendar a identidade de um assassino mascarado que parece sempre...
