ANNY

42 2 0
                                        


Faz três dias desde aquela noite na fábrica, mas ainda acordo suando frio, o coração disparado. A visão daquela coisa — seja lá o que for — está gravada em minha mente. Olhos negros. Voz sombria. E aquele jeito de se mover... como se deslizasse, como se não fosse deste mundo.

Na escola, tudo parece mais silencioso do que o normal. Não porque as aulas estão diferentes, mas porque todo mundo está com medo. Mais uma morte seria demais para Green Valley. É estranho como o luto parece normal agora, como se tivéssemos nos acostumado a funerais e velórios. Mas, ao mesmo tempo, ninguém realmente fala sobre isso. Há apenas silêncio e olhares desconfiados.

Blake está quieto, algo incomum para ele. Nós nos encontramos na cafeteria durante o almoço, e ele apenas fica brincando com as batatas fritas no prato, sem comer. Luke senta ao nosso lado, ainda parecendo deslocado, mas agora mais envolvido. Depois daquela noite, é como se estivéssemos presos em algo que nenhum de nós entende completamente.

— Vocês acham que ele... ou aquilo... vai voltar? — pergunto, minha voz baixa, para que ninguém ao redor ouça.

Luke troca um olhar com Blake antes de responder.
— Não acho que ele foi embora.

Blake finalmente fala, seu tom carregado de ironia.
— Ele? Aquilo não é um ele. É alguma coisa. Sei lá, talvez um demônio ou algo assim.

Reviro os olhos.
— Demônio? Vamos lá, Blake. Estamos assustados, mas isso não significa que precisamos inventar histórias de terror.

Ele se inclina na minha direção, os olhos fixos nos meus.
— E o que você acha que era, Anny? Um cara normal que decide aparecer na fábrica, com olhos pretos, falando uma língua que ninguém entende?

Eu não sei o que responder. A verdade é que não tenho ideia do que vimos naquela noite, mas não consigo acreditar que foi algo sobrenatural. Deve haver uma explicação. Sempre há.

A conversa é interrompida pelo som de passos rápidos. Srta. Mendez surge do nada, com sua postura rígida e olhar sempre avaliador. Ela parece mais cansada do que o normal, as olheiras profundas revelando noites sem dormir.

— Precisamos conversar — ela diz, olhando diretamente para Blake.

Ele suspira e se levanta, jogando um olhar para mim e Luke antes de seguir a mulher para fora da cafeteria.

— Você acha que ela sabe de alguma coisa? — Luke pergunta.

Dou de ombros.
— Acho que ela está apenas tentando manter Blake na linha.

Luke parece hesitar antes de continuar.
— Eu estava pensando... E se essas mortes estão conectadas? Tipo, não só pelas vítimas serem da escola, mas por algo maior?

Eu o encaro, franzindo a testa.
— Maior como o quê?

Ele desvia o olhar, desconfortável.
— Não sei... Uma espécie de ritual, talvez?

Solto uma risada curta.
— Você e Blake estão obcecados com isso de sobrenatural.

Luke não responde, mas algo em sua expressão me faz sentir que ele sabe mais do que está dizendo.

Mais tarde, quando chego em casa, encontro meus pais discutindo. Eles acham que não ouço, mas estou bem acostumada a prestar atenção em suas brigas. Desta vez, é sobre mim.

— Ela está diferente, Charles. Não sei o que está acontecendo, mas estou preocupada. — A voz de minha mãe é baixa, mas carrega um tom de desespero.

— É só a idade, Linda. Ela está crescendo, testando limites. Isso é normal.

— Não, não é só isso. Algo está errado, e você sabe disso!

Eu subo para o meu quarto antes que eles percebam minha presença, me jogando na cama e olhando para o teto. Será que eles sabem? Será que, de alguma forma, eles percebem o quanto estou envolvida em algo que nem mesmo entendo?

No dia seguinte, a notícia de mais uma morte espalha-se pela escola como fogo. A vítima desta vez é Sarah Mitchell, uma das líderes de torcida. Todo mundo adorava Sarah. Ela era bonita, popular, e parecia sempre saber o que dizer para fazer qualquer um se sentir especial.

Mas agora ela está morta.

A cena é familiar: um corpo encontrado em um lugar isolado, brutalmente assassinado, sem pistas de quem ou o quê poderia ser o responsável. O medo que estava à espreita agora é palpável. Todos estão olhando para todos, tentando encontrar algo suspeito, algo que os faça se sentir seguros em meio ao caos.

Blake, Luke e eu nos encontramos no estacionamento depois da aula. O clima é tenso.

— Vocês acham que foi... aquilo? — pergunto, baixinho.

Luke assente, parecendo mais sério do que nunca.
— É claro que foi. E se continuarmos fingindo que isso não está acontecendo, mais gente vai morrer.

Blake se encosta no capô do carro, os braços cruzados.
— Então o que fazemos? Vamos até a polícia e dizemos o quê? Que vimos um monstro? Eles vão rir na nossa cara.

— Então encontramos provas — Luke diz, a determinação clara em sua voz. — Não podemos ficar sentados enquanto isso continua acontecendo.

Eu olho de um para o outro, sentindo o peso do que estamos prestes a fazer. Não sei se é coragem ou estupidez, mas sei que estamos prestes a mergulhar ainda mais fundo no abismo.

E, de alguma forma, sinto que não vamos sair disso vivos.

Silêncio MortalOnde histórias criam vida. Descubra agora