Se tem uma coisa que eu aprendi vivendo em Green Valley é que, se você não der seu jeito de se divertir, essa cidade vai te engolir com seu tédio e te cuspir como uma pessoa amarga e sem futuro. É por isso que, mesmo com todo o clima sombrio que tomou conta daqui nas últimas semanas, eu sempre encontro uma maneira de fugir da monotonia. E, às vezes, isso significa me encontrar com Kyle, o quarterback do colégio.
Antes que você pergunte, não, eu não sou estudante do Green Valley High. Já estou no segundo ano da faculdade, mas, honestamente, faculdade é superestimada. Eu estudo design gráfico, mas não vou mentir: passo mais tempo editando fotos para meu Instagram do que ouvindo as aulas do professor Ashby. Minha relação com Kyle é, digamos, discreta. Ele é popular, bonito, e meio burro, mas tem seu charme.
Hoje era uma típica tarde gelada em Green Valley. Eu caminhava para a lanchonete Frosty's, o ponto de encontro mais movimentado da cidade. As luzes de neon piscavam preguiçosamente na entrada, enquanto adolescentes e universitários entravam e saíam com copos de chocolate quente e bandejas de batatas fritas. Era quase uma tradição.
Pedi um cappuccino e sentei no canto de sempre, onde eu podia observar as pessoas sem ser observada. Era como um reality show ao vivo. A garota que trabalha no caixa, Ellie, é conhecida por esquecer os pedidos de metade das pessoas, mas ninguém se importa porque ela tem um sorriso que faria qualquer um esquecer a fome.
Enquanto eu estava ali, esquentando as mãos no copo e me distraindo com as conversas ao meu redor, ouvi um grupo de estudantes comentando sobre o que todos já sabiam: os assassinatos. "Você acha que eles vão pegar o cara?" disse um garoto com uma jaqueta vermelha do time de basquete. "Sei lá. Dizem que é um psicopata mascarado," respondeu outro, olhando para os lados como se o próprio assassino pudesse aparecer a qualquer momento.
Green Valley nunca foi um lugar perigoso, mas as mortes recentes trouxeram um peso estranho para a cidade. Todo mundo tinha sua teoria. Alguns culpavam alunos problemáticos; outros juravam que era coisa de algum maníaco de fora. Eu, pessoalmente, achava que era um misto de incompetência da polícia e coincidências infelizes. Mas, claro, ninguém quer ouvir a opinião da "universitária intrometida".
Depois de sair da Frosty's, caminhei pelo centro da cidade, passando por alguns dos lugares que tornavam Green Valley única, para o bem e para o mal. O "Copper Pub" era um bar que tinha sua clientela fiel de homens de meia-idade que bebiam cerveja barata enquanto reclamavam do governo. Já o "Moonlit Arcade" era onde os adolescentes iam gastar suas mesadas em fliperamas e maquininhas de garras que nunca agarravam nada.
E aí tinha o ginásio. Green Valley era obcecada por esportes, mesmo que nossos times fossem consistentemente medíocres. O campo de futebol americano era o coração da escola, mesmo que o espírito de equipe fosse mais desanimado que uma lâmpada com a voltagem errada. Eu só passava lá porque sabia que Kyle estaria treinando.
Quando cheguei ao ginásio, Kyle estava no vestiário, mas uma coisa chamou minha atenção: um grupo de garotos do time estava reunido perto de um dos carros no estacionamento. Eles pareciam nervosos, sussurrando e olhando ao redor. Me aproximei, tentando não chamar atenção, e ouvi algo que gelou minha espinha.
"Você acha que alguém viu a gente ontem à noite?"
"Eu não sei, cara. A gente só tem que ficar quieto e ninguém vai desconfiar."
"É, mas e se ele aparecer de novo?"
"Shh! Cala a boca. Alguém pode ouvir."
Aquilo me deixou inquieta. Quem ele? O que esses garotos estavam escondendo? Resolvi me afastar antes que notassem minha presença, mas não sem antes tirar uma foto discreta deles com meu celular. Talvez fosse só mais uma paranoia adolescente, mas, no clima atual de Green Valley, qualquer coisa parecia uma pista.
Decidi não atrapalhar Kyle, fui caminhando até o carro, o céu começou a escurecer, e as ruas ficaram assustadoramente desertas. Foi quando ouvi passos atrás de mim. O som ecoava pelo asfalto gelado, aumentando a cada segundo. Olhei por cima do ombro, mas não vi ninguém.
"Paranoia, Mia," sussurrei para mim mesma enquanto eu procurava a chave dentro da minha bolsa.
Mas os passos continuaram, agora mais próximos. Meus dedos tremiam enquanto eu pegava meu celular ao invés das chaves, ja esta pronta para discar o número da polícia. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, uma figura saiu das sombras.
Ele usava uma máscara que eu só tinha ouvido falar nas fofocas: branca, sem expressão, com olhos vazios que pareciam te seguir.
Minha respiração ficou presa. "O que você quer?" minha voz soou mais firme do que eu esperava.
Ele não respondeu. Apenas ficou ali, parado, como se estivesse me estudando. E então, do nada, deu um passo à frente.
Corri. Não consegui chegar até o carro então corri como nunca na minha vida. Virei na esquina mais próxima, mas ele ainda estava atrás de mim. Foi só quando cheguei à praça central que vi um rosto conhecido: Blake. Ele estava ali, sentado em um banco com sua jaqueta preta, mas quando me viu correndo, imediatamente ficou de pé.
"Ajuda!" gritei, apontando para trás.
Quando me virei para mostrar quem me perseguia, ele não estava mais lá. O mascarado havia desaparecido.
Blake olhou para mim, confuso e alerta. "O que aconteceu?"
Eu mal conseguia respirar, mas sabia de uma coisa: O assassino está em busca de qualquer pessoa, qualquer um é o alvo e não sabemos o motivo.
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Silêncio Mortal
TerrorEm uma cidade pequena marcada por segredos e tragédias, uma série de assassinatos brutais transforma o cotidiano em um pesadelo. Enquanto o medo se espalha, um grupo de jovens tenta desvendar a identidade de um assassino mascarado que parece sempre...
