BLAKE

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Dois meses. Sessenta e três dias, para ser mais exato. Esse foi o tempo que se passou desde a última vez que vi aquele desgraçado mascarado desaparecer nas sombras, me deixando sangrando no chão de um galpão. Durante esse tempo, Green Valley entrou em um estado estranho de calmaria. A ferida que ele deixou, não só em mim, mas na cidade inteira, parecia começar a cicatrizar.

Agora, o frio intenso do inverno havia dado lugar a uma brisa fresca, o prenúncio da primavera. As árvores ao redor da cidade estavam começando a florescer, cobrindo os parques com uma explosão de cores vibrantes. Era como se a natureza estivesse tentando lembrar Green Valley que ainda havia vida, mesmo depois de todo aquele caos.

Depois daquela noite, passei semanas no hospital. O golpe na minha perna deixou marcas que não eram apenas físicas; cada cicatriz me lembrava de como estive perto de morrer. A Anny vinha me visitar sempre que podia, mas eu podia ver nos olhos dela que ainda estava assombrada. Ela raramente falava sobre o que viu no rosto do assassino, mas quando falava, sua voz tremia.

Os moradores começaram a acreditar que o assassino tinha morrido. Sem mais mortes, sem mais mensagens ameaçadoras, era fácil para eles aceitarem essa teoria. "Ele deve ter se ferido e se escondeu em algum lugar, talvez tenha sangrado até a morte," disseram em bares e nas esquinas.

Eu não acreditava nisso. Nem por um segundo.

Os jovens voltaram a encher os cafés e as lanchonetes. O Central Diner, onde Anny e eu costumávamos nos encontrar depois das aulas, estava lotado todas as noites. O pub Red Lantern também estava repleto de universitários que se sentiam à vontade para beber até tarde da noite. Até mesmo os treinos do time de futebol americano, que tinham sido cancelados por meses, haviam sido retomados.

Green Valley estava lentamente voltando ao eixo, mas, para mim, o peso de tudo ainda estava presente. Eu podia sentir a tensão invisível no ar, como se a cidade estivesse fingindo que tudo estava bem.

Eu estava sentado no banco da praça principal, observando Anny ao longe enquanto ela ria com seus amigos. Seus cabelos brilhavam à luz do sol, e, por um momento, ela parecia tão tranquila que me perguntei se estava começando a superar tudo. Mas então, ela olhou na minha direção. Apenas por um instante. E vi algo em seus olhos. Algo que ela tentava esconder.

Anny também sabia que não tinha acabado.

Voltei para casa no início da noite, minha perna ainda doía de vez em quando, especialmente em dias frios. A casa estava quieta. Minha mãe adotiva trabalhava em um turno duplo, e isso significava que eu ficaria sozinho até tarde da noite.

Decidi tomar um banho para tentar relaxar. A água quente era quase um alívio terapêutico, mas minha mente ainda vagava. Não importava quantos dias passassem, o rosto coberto pela máscara ainda aparecia em meus sonhos.

Quando saí do banheiro, senti o mesmo arrepio que sempre me atingia à noite. "Você está ficando paranoico, Blake," murmurei para mim mesmo enquanto vestia uma camiseta e calças de moletom.

Fui para a cozinha, fiz um sanduíche e me sentei na mesa, encarando o relógio na parede. O ponteiro dos segundos parecia lento demais, como se o tempo estivesse zombando de mim.

Foi então que percebi. O cadeado da porta dos fundos estava solto.

Meu coração deu um salto. Tentei lembrar se havia trancado a porta quando entrei. Devia ter trancado. Sempre tranco. Levantei-me devagar e fui até a porta, verificando o exterior. Nada parecia fora do lugar. Nenhuma pegada no chão, nenhuma marca na neve derretida que ainda estava nos cantos do quintal.

Mesmo assim, tranquei o cadeado novamente e voltei para a sala.

Quando me sentei, notei algo que não estava ali antes. Um único botão de jaqueta escuro, repousando no canto da mesa.

"Isso estava aqui antes?" perguntei em voz alta, mas não obtive resposta.

Peguei o botão, analisando-o. Era de couro, desgastado, e tinha uma pequena rachadura no centro. Um botão tão comum que poderia pertencer a qualquer pessoa, mas, naquele momento, parecia carregar um peso muito maior.

Resolvi deixar para lá, colocando o botão no bolso da jaqueta. Subi para o meu quarto e tentei ignorar a inquietação que sentia. Talvez fosse apenas minha mente me pregando peças.

No dia seguinte, acordei com mensagens de Anny:
"Vamos ao Central Diner hoje?"
"Preciso de um milkshake e abraçar meu namorado."

Aceitei sem hesitar. A rotina parecia ser uma boa distração. Quando cheguei ao Diner, a cidade estava em sua plenitude de primavera: crianças correndo pelo parque, casais andando de bicicleta, e o som dos sinos da igreja ao longe.

Na mesa, Anny estava diferente. Ainda linda, mas havia algo em sua postura, como se ela estivesse mais confiante ou tentando fingir que estava. Pedimos nossos pedidos habituais, e por um tempo conseguimos conversar como se tudo estivesse normal.

Mas, do nada, ela baixou a voz e disse: "Eu ainda sinto que estamos sendo observados."

Minha mão parou no meio do caminho enquanto segurava o copo de refrigerante. "O quê?"

"É só... às vezes, sinto que ele está lá. Não sei onde, mas está."

Olhei ao redor do Diner. Estava cheio, mas ninguém parecia prestando atenção em nós. Mesmo assim, o peso das palavras dela pairava sobre mim como uma sombra.

Enquanto voltávamos para casa, passamos pelo beco que dava para o estacionamento. Foi quando notei algo. Na parede, havia um rabisco feito com tinta vermelha. Não era exatamente uma palavra, mas sim um símbolo estranho. Um triângulo cruzado por uma linha.

"Isso sempre esteve aí?" perguntei.

Anny olhou para a parede, franzindo o cenho. "Não faço ideia."

Ela deu um passo para mais perto de mim, segurando minha mão como fazia sempre que se sentia vulnerável. Era um gesto simples, mas carregado de significado, principalmente porque sabíamos o quanto nosso relacionamento desafiava as regras da cidade e dos pais dela.

"Blake," ela disse, me encarando. "Às vezes eu fico pensando... será que isso vai acabar? Essa sensação de que ele está por perto?"

A forma como ela disse isso fez meu peito apertar. Eu sabia que ela não estava falando só do assassino. Ela estava falando de tudo o que estávamos enfrentando juntos — o perigo, a desaprovação, e o constante medo de perdermos um ao outro.

Silêncio MortalOnde histórias criam vida. Descubra agora