A noite estava mais quente do que eu esperava para o verão, mas era o tipo de calor bom, aquele que parece que te envolve, te abraça com a brisa suave que vem do lago. A fogueira estava estalando, iluminando as sombras dançantes das árvores, criando um cenário que poderia ter saído de um filme de terror. Mas não era terror o que estava em jogo ali, pelo menos não para mim.
Eu estava deitada ao lado do Blake, no deck de madeira da cabine, um lugar que nos permitia ver o céu aberto e observar as estrelas. Eu poderia mentir e dizer que estava apenas aproveitando o momento tranquilo, mas a verdade é que desde que tudo aconteceu — desde que o assassino apareceu, as noites insuportáveis e todas as promessas que ele fez para manter a distância — eu estava sentindo falta de algo. Falta dele. Falta da gente.
O silêncio entre nós se estendia mais do que eu gostaria, mas era um silêncio confortável, como se não precisássemos de palavras para entender o que acontecia dentro dos nossos corações. Mas, claro, eu sabia que ele estava se afastando. Eu sabia que, no fundo, ele ainda se sentia culpado, como se aquilo fosse uma espécie de castigo, mas o que ele não entendia é que eu também sentia o mesmo. Talvez mais ainda.
— Eu sei que você está me evitando. — Eu não consegui me segurar e disse, a voz saindo mais suave do que eu queria. O tom não era de acusação, mas de desabafo. Eu queria mais do que aquilo, queria mais de nós.
Ele me olhou com aquele olhar tão intenso, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas, mas também parecia estar lutando contra algo, um sentimento que ele não queria aceitar.
— Não estou te evitando... — Ele murmurou, mas a insegurança na voz dele me fez rir, uma risada meio sem graça, meio nervosa. Ele estava tentando se convencer mais do que me convencer. — Eu só não sei o que fazer depois de tudo. Eu... Eu tenho medo de te perder, Anny.
As palavras dele me atingiram de um jeito estranho. Por um lado, eu sabia que ele estava sendo sincero, mas por outro, ele parecia estar tão perdido quanto eu. Aquele medo de se perder de novo, de reviver as sombras do passado. Eu também tinha esse medo. Mas eu não podia mais esperar. Não podia mais deixar que as incertezas nos separassem.
Eu virei de lado para ele, encarando-o diretamente, e pela primeira vez em semanas, vi a mesma dor nos olhos dele que eu sentia. Não era um olhar de medo, mas de uma saudade que não queria admitir.
— Eu tenho medo de te perder também... — Eu falei, e, por um momento, parecia que o tempo parava. Não foi uma resposta que eu planejei, mas foi o que saiu, o que eu sentia. Ele sorriu, mas foi um sorriso cansado, como se finalmente soubesse o que eu estava dizendo, como se nós dois finalmente estivéssemos na mesma página.
Eu sabia o que ele queria dizer, mas talvez fosse mais fácil dizer com ações do que com palavras. E foi isso que fizemos.
Eu o puxei para um beijo. Não um beijo desesperado, mas um beijo cheio de significado, cheio de todas as coisas não ditas e que, até então, haviam ficado entre nós. O beijo começou devagar, mas logo se tornou urgente, como se os nossos corpos estivessem implorando por esse momento de reencontro. Eu sentia o calor dele, o toque das mãos dele na minha pele, e percebia, a cada segundo, o quanto eu sentia falta de nós. De quem nós éramos antes de tudo. Antes de toda aquela bagunça.
Quando nos afastamos, as palavras ficaram presas na garganta. Eu sabia que tudo o que acontecia entre nós não era simples, mas naquele momento, não importava. O mundo ao redor parecia desaparecer, e o único som que eu conseguia ouvir era o nosso respirar entrecortado, o som das nossas mãos se tocando, a batida dos nossos corações.
— Eu prometi pra srta. Mendez que não me meteria mais em problemas... — Blake disse com uma voz rouca, quase como se estivesse se justificando. Eu o olhei, tentando encontrar alguma palavra que fosse perfeita, mas a verdade é que não havia nada que pudesse fazer para apagar o que já estava feito. Não agora. — Mas você... Você é minha perdição, Anny.
Eu não pude deixar de rir, baixinho, mais por nervosismo do que por qualquer outra coisa. Ele tinha razão, ele sempre tinha razão quando se tratava de nós. Mas eu não queria mais me esconder, não queria mais ficar à margem.
— Eu não sou um problema, Blake... — Eu respondi com um sorriso, antes de puxá-lo para mais um beijo, mais profundo dessa vez, mais urgente. Eu sentia como se estivéssemos tentando fazer o tempo parar, tentando encontrar algo que se perdeu no meio do caminho. Algo que, talvez, nem precisasse de palavras.
Quando nos afastamos novamente, a respiração estava acelerada. Eu me encostei nele, com a sensação de que havia algo mais entre nós, algo novo, algo que nos permitiria seguir em frente. O silêncio entre nós não era mais desconfortável, era acolhedor. Não havia promessas, não havia medos. Só nós dois e a noite de verão.
— Eu não sei o que vai acontecer depois... — Blake disse, ainda tocando meu rosto. — Mas quero tentar. Quero tentar tudo, com você.
Eu sorri. Ele estava tão vulnerável, tão aberto para o que quer que fosse, e isso era tudo o que eu precisava ouvir. Eu não sabia o que o futuro nos reservava, mas naquela noite, sob o céu estrelado, sentia que poderíamos enfrentar qualquer coisa. Juntos.
— Eu também quero tentar. — Eu disse, e pela primeira vez em muito tempo, eu senti que tudo ficaria bem.
A fogueira estalou novamente, como se estivesse aplaudindo o que acabara de acontecer entre nós. O calor da noite parecia mais suave agora, e o som das árvores balançando na brisa suave era a trilha sonora perfeita para a nossa história, uma história que, apesar das incertezas, ainda estava sendo escrita.
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Silêncio Mortal
HorrorEm uma cidade pequena marcada por segredos e tragédias, uma série de assassinatos brutais transforma o cotidiano em um pesadelo. Enquanto o medo se espalha, um grupo de jovens tenta desvendar a identidade de um assassino mascarado que parece sempre...
