Aqui nessa cidade, você aprende cedo que ninguém está realmente seguro. Mas não me leve a mal, aqui ainda parece uma daquelas cidades perfeitas de cartões postais. Casas com cercas brancas, gramados bem cuidados, e as ruas tranquilas onde nada de errado deveria acontecer. Só que as aparências enganam. Sempre enganam.
Eu estava jogando videogame quando minha mãe entrou no quarto sem bater, como de costume. Ela segurava o celular, o rosto pálido.
— Nathan, mais uma garota do colégio foi encontrada morta.
Parei o jogo imediatamente. Não porque me importo, mas porque sei o que vem depois. "Tenha cuidado, Nathan. Não confie em ninguém, Nathan. Não ande sozinho à noite, Nathan." Sempre o mesmo sermão.
— E daí? — resmungo, voltando a atenção para a tela.
— Não seja insensível! — ela rebate, a voz afiada. — A mãe dela estava no mercado hoje cedo quando a polícia apareceu. Imagine como ela deve estar.
Eu desligo o jogo, não porque me sinto culpado, mas porque sei que ela não vai me deixar em paz até que pareça que estou ouvindo.
— Quem foi?
— Sarah Mitchell.
Isso me pega de surpresa. Sarah era... especial. Ela era popular, mas não era daquele tipo cruel que costuma reinar no colégio. Era alguém que iluminava qualquer lugar que entrasse, até mesmo para caras como eu, que preferem passar despercebidos.
— Como? — pergunto, tentando soar desinteressado.
Minha mãe dá de ombros.
— Ninguém sabe. Mas dizem que foi horrível.
Claro que foi. Nada em Green Valley é apenas ruim. É sempre horrível, grotesco, algo digno de um filme de terror.
Na escola, o clima está pesado. Todo mundo sussurra pelos corredores, como se Sarah fosse aparecer do nada e mandá-los calar a boca. Mas eu estou mais preocupado com outra coisa: a reunião no clube de jornalismo.
Não contei isso para ninguém, mas a razão de eu estar no clube é porque quero ser jornalista de verdade um dia. Não um daqueles que fazem matérias idiotas sobre fofocas de celebridades, mas alguém que descobre coisas que ninguém mais quer descobrir.
Chego à sala e encontro Kelly, a presidente do clube, que está tentando parecer menos ansiosa do que realmente está. Ela tem uma pilha de anotações na mesa, e dá para ver que esteve ocupada.
— Sarah Mitchell. Vamos falar sobre isso? — pergunto, me sentando.
Ela balança a cabeça, preocupada.
— É claro que vamos. Mas com cuidado. Não quero que o clube pareça sensacionalista.
Outros membros chegam, e logo estamos discutindo o que sabemos — que não é muito. Kelly parece relutante, mas eu insisto.
— E se tentarmos descobrir o que a polícia não está dizendo?
— Isso não é o nosso trabalho — ela retruca.
— Não é o nosso trabalho, mas é o que faz um jornalista de verdade — rebato.
Ela hesita, mas acena com a cabeça.
— Tudo bem, Nathan. Você quer liderar isso? Então lidere. Mas cuidado.
Saio da reunião com a cabeça cheia. Não sei por onde começar, mas tenho a sensação de que algo não está certo. Alguém sabe mais do que está contando.
No dia seguinte, decido começar com Blake. Ele não é exatamente um amigo, mas já nos cruzamos algumas vezes, e sei que ele está sempre no meio de confusão. Algo nele me diz que ele pode saber de algo.
Encontro-o no estacionamento depois da aula, encostado no capô de um carro velho. Anny está com ele, claro. Eles formam aquele tipo de casal que parece estar sempre no limite entre o desastre e a paixão.
— Blake! — chamo, tentando soar descontraído.
Ele levanta o olhar, desconfiado.
— O que você quer, Nathan?
— Só conversar. Sobre... tudo isso.
Ele troca um olhar com Anny antes de responder.
— Não sei do que você está falando.
— Sabe, sim. — Cruzo os braços, encarando-o. — Vocês estavam na fábrica. Ouvi uns boatos.
Ele solta uma risada curta, mas seus olhos não têm humor.
— Boatos são só isso: boatos.
— Talvez. Mas se você souber de alguma coisa, seria bom contar.
— Olha, Nathan, eu não sou o detetive dessa cidade. Se está curioso, vá falar com a polícia.
— Eles não vão me dizer nada — retruco.
Blake suspira, como se estivesse pesando suas opções. Então, finalmente, ele diz:
— Se eu souber de algo, você será o primeiro a saber, ok?
Não é exatamente o que eu queria, mas já é alguma coisa.
Mais tarde, estou em casa, revisando minhas anotações, quando recebo uma mensagem de Kelly.
"Nathan, outra pessoa foi encontrada. É sério."
Meu coração dispara. Outra pessoa? Ligo a TV, e a notícia já está em todos os canais locais. O corpo de um garoto foi encontrado atrás da lanchonete perto da escola.
Corro para o local, minha curiosidade me impulsionando. O lugar está cercado por policiais, mas dá para ver a movimentação. Pessoas estão reunidas em pequenos grupos, cochichando.
Blake e Anny estão lá, e, para minha surpresa, Luke também. Aproximo-me deles.
— O que aconteceu?
Blake parece tenso, mais do que antes.
— Não sei. Mas isso está longe de acabar.
Eu olho ao redor, sentindo um frio na espinha. A cidade está desmoronando, e todos nós estamos presos no meio disso.
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Silêncio Mortal
HorrorEm uma cidade pequena marcada por segredos e tragédias, uma série de assassinatos brutais transforma o cotidiano em um pesadelo. Enquanto o medo se espalha, um grupo de jovens tenta desvendar a identidade de um assassino mascarado que parece sempre...
