MIA

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A primavera chegou, mas eu continuo congelada no inverno. Não importa o quanto o sol brilhe ou quantas flores desabrochem em Green Valley, tudo em mim parece cinza. É como se o resto do mundo estivesse voltando à vida, mas eu ainda estivesse presa na noite em que tudo desmoronou.

As ruas estão cheias agora. O toque de recolher é coisa do passado, e as pessoas voltaram a fingir que nada de errado aconteceu. Vejo gente passeando de bicicleta, correndo no parque, rindo nos cafés... E eu aqui, olhando pela janela do meu quarto, me perguntando como eles conseguem.

Na escola, a conversa é sempre a mesma: "O baile está chegando!", "Você já escolheu o vestido?" e "Quem vai ser o par da fulana?" Me pergunto se alguma dessas pessoas percebeu que quase morri há alguns meses. Provavelmente não. E, se perceberam, já esqueceram.

Andar pelos corredores se tornou um exercício de paciência. Todo mundo agindo como se a vida fosse tão simples. Mas, pra mim, não é. Depois daquela noite, nada mais foi simples. Meus pais me colocaram numa psicóloga, e, sinceramente? Até que tem ajudado. Quer dizer, ela tem essa voz suave e um sorriso tranquilizador que, às vezes, me fazem acreditar que eu vou ficar bem. Pelo menos até eu sair da consulta.

Minha terapeuta gosta de me fazer exercícios de respiração. Diz que eu preciso aprender a controlar meus pensamentos, mas, toda vez que fecho os olhos, tudo o que vejo é o estacionamento. O barulho dos passos. O som do meu coração acelerado. O Blake surgindo do nada. Às vezes, eu me pergunto: e se ele não tivesse aparecido?

Hoje, enquanto eu atravessava os corredores, tentando chegar à aula de literatura sem ser notada, a Emily — aquela garota insuportável que acha que é a dona da escola — decidiu que seria uma boa ideia abrir a boca.

"Olha só quem está aqui. A filhinha da mamãe. Como é mesmo? Psicóloga três vezes por semana, não é? Uau, que vida difícil a sua, Mia. Quase morrer e agora tá aí choramingando por atenção."

Eu parei no meio do corredor. Podia sentir os olhos de todo mundo em mim, esperando pra ver o que eu faria.

"Você tá certa, Emily," disse, virando pra ela com um sorriso doce. "Quase morrer realmente me deu um novo hobby. Agora eu passo os dias pensando em como não ser tão amargurada quanto você."

Ouvi algumas risadas ao redor, mas não esperei pra ver a reação dela. Continuei andando, mesmo sentindo minhas mãos tremendo. Quando entrei no banheiro, fechei a porta da cabine e me sentei no vaso sanitário com a tampa abaixada.

As lágrimas vieram antes que eu pudesse segurá-las. Eu queria ser mais forte. Queria que comentários como o dela não me atingissem, mas eles sempre conseguem.

"Tá tudo bem aí?"

A voz era suave, quase um sussurro. Olhei por baixo da porta da cabine e vi um par de tênis brancos.

"Quem é?" perguntei, tentando soar firme, mas minha voz saiu trêmula.

"É a Sarah," ela respondeu. "Eu tô na aula de arte, acho que a gente nunca se falou, mas... posso entrar?"

Abri a porta lentamente, e lá estava ela: cabelos curtos tingidos de rosa, piercing no nariz e um sorriso que parecia genuíno.

"Você não precisa falar nada se não quiser," ela disse, sentando no chão do banheiro como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. "Eu só achei que você podia querer companhia."

Não sei por que, mas comecei a falar. Contei sobre a Emily, sobre como as pessoas acham que já passou tempo suficiente pra eu superar tudo, e sobre como, às vezes, eu acho que elas estão certas.

"Elas não estão certas," Sarah disse, com uma convicção que quase me fez acreditar. "Ninguém tem o direito de dizer quanto tempo você precisa pra superar alguma coisa. Especialmente algo tão... horrível."

Ficamos ali por um tempo, só conversando. E, pela primeira vez em meses, senti como se alguém realmente me ouvisse.

Quando voltei pra aula, ainda sentia os olhos vermelhos, mas não me importava. Eu tinha algo novo dentro de mim. Não era exatamente esperança, mas talvez fosse um começo.

Silêncio MortalOnde histórias criam vida. Descubra agora