O som dos meus próprios passos ecoa pela fábrica abandonada enquanto caminho por entre as sombras. Não deveria estar aqui, mas algo me trouxe até este lugar. Um tipo de magnetismo, talvez. Ou talvez só a curiosidade que sempre me mete em encrenca.
Green Valley virou um inferno nas últimas semanas. Três mortes. Três adolescentes mortos de maneiras tão brutais que até a polícia tenta abafar os detalhes. O medo tomou conta da cidade, mas não de mim. Não sinto medo há muito tempo. Perdi essa capacidade depois de passar por tudo o que passei.
Meus pais me acham estranho. Eles nunca dizem isso, mas eu sei. "Luke, você precisa se enturmar mais." É o que minha mãe repete. Mas como vou me enturmar se a maioria das pessoas me trata como um alienígena? Talvez porque eu seja um alienígena em Green Valley, aquele garoto novo que ninguém realmente conhece, aquele que todos observam pelas costas, mas ninguém tem coragem de encarar de frente.
Paro no meio do corredor enferrujado da fábrica. Ouço vozes. Baixas, intensas, próximas. Me aproximo, seguindo o som, e vejo duas figuras na penumbra. Estão tão focadas uma na outra que nem notam minha presença. Blake e Anny.
Blake é aquele tipo de cara que chama atenção sem fazer esforço. Eu o observei de longe na escola. Ele é um imã de problemas, mas há algo nele que fascina as pessoas. Talvez seja a audácia, ou talvez só a cara de quem não dá a mínima.
Anny, por outro lado, é o oposto. A princesinha de Green Valley, com aquele jeito doce que esconde uma rebeldia que ela tenta manter enterrada. Não sabia que os dois estavam juntos. Isso explica muita coisa.
Eles estão em um canto da fábrica, a luz da lua entrando pelas janelas quebradas. Blake está contra a parede, com Anny em cima dele, as pernas dela envolvendo sua cintura. As mãos dele exploram as costas dela, puxando a blusa que, em segundos, cai ao chão.
— Você sabe que é loucura, né? — ela sussurra, enquanto ele a beija no pescoço, descendo até a curva dos ombros.
— É isso que torna tão bom — ele responde, a voz rouca.
Por um momento, sinto que deveria me afastar, dar privacidade aos dois. Mas algo me prende. Não é só o desejo de observar — embora isso seja parte disso. É a sensação de que há algo mais acontecendo. Algo errado.
Anny joga a cabeça para trás enquanto ele desliza as mãos pela cintura dela, os dois completamente alheios ao mundo ao redor. Eu deveria sair dali, mas o som de um rangido ao longe me faz congelar.
Não sou o único observador.
— Quem está aí? — a voz de Blake corta o silêncio, dura e tensa.
Ele empurra Anny de leve e dá um passo à frente, os olhos procurando na escuridão. Meu coração acelera. Será que ele me viu? Mas antes que eu possa reagir, um vulto surge do outro lado do corredor.
— Blake? — Anny chama, a voz trêmula.
O vulto é alto, magro e se move de forma estranha, como se deslizasse em vez de andar. Um arrepio percorre minha espinha. Eu deveria correr, avisar alguém, mas algo me impede. O vulto para, como se estivesse observando Blake.
— Quem é você? — Blake pergunta, cerrando os punhos.
O vulto não responde. Ele apenas levanta algo — algo que brilha à luz da lua. Uma lâmina.
— Anny, corre! — Blake grita, empurrando-a para trás.
Mas ela não se move. Está paralisada, o olhar fixo na figura diante deles. Minha cabeça está a mil, meu instinto me gritando para fazer algo, qualquer coisa. Não sei de onde vem a coragem, mas dou um passo à frente, saindo das sombras.
— Ei! — grito, chamando a atenção do vulto.
Ele vira a cabeça em minha direção, e o que vejo me faz congelar. Seus olhos... Não são normais. São dois buracos negros, vazios, como se não houvesse nada dentro dele.
Blake aproveita a distração e avança, acertando um soco no vulto. A lâmina cai no chão com um som metálico, e o vulto solta um ruído estranho, como um gemido que parece vir de outro mundo.
— Luke?! — Blake grita, me reconhecendo.
Eu corro até eles, pegando a lâmina antes que o vulto consiga. Ele se levanta, mas agora são três contra um. Blake segura Anny, que finalmente parece voltar à realidade, enquanto eu fico entre eles e a coisa.
O vulto dá um passo para trás, os olhos negros brilhando, antes de desaparecer na escuridão como se nunca tivesse estado ali.
— O que foi isso? — Anny pergunta, ofegante, agarrando o braço de Blake.
— Não sei, mas não era humano — respondo, ainda segurando a lâmina, sentindo seu peso frio em minhas mãos.
Blake me encara, a desconfiança estampada em seu rosto.
— O que você tá fazendo aqui, Luke?
Não tenho uma resposta. Não sei por que vim, nem por que me meti nisso. Só sei que, de alguma forma, estou envolvido. Todos nós estamos.
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Silêncio Mortal
УжасыEm uma cidade pequena marcada por segredos e tragédias, uma série de assassinatos brutais transforma o cotidiano em um pesadelo. Enquanto o medo se espalha, um grupo de jovens tenta desvendar a identidade de um assassino mascarado que parece sempre...
