Eu nunca fui do tipo que curte acordar cedo, mas, no acampamento, é impossível ignorar o sol invadindo a cabine como um raio laser direto nos olhos. Sério, quem inventou cortinas finas devia estar de brincadeira. Eu abri um olho, meio zonzo, e ouvi a risada da Mia do lado de fora, provavelmente mexendo no celular ou fazendo algo tão desnecessário quanto acordar antes das nove da manhã.
O som de pássaros e o cheiro de madeira úmida eram bons, admito, mas, honestamente, depois de uma noite de fogueira e histórias sobre lendas do lago, o mínimo que eu queria era uma manhã tranquila. Só que tranquilidade e eu nunca fomos bons amigos.
Enquanto todo mundo começava a se mover devagar — alguns já indo para o lago e outros preparando café com o gosto de carvão —, uma ideia começou a tomar forma na minha cabeça. Algo para apimentar o dia, porque, convenhamos, o verão é curto demais para seguir as regras.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem direta para o Blake:
"Mano, preciso de você. Traz a Anny. Vai ser divertido. Confia."
Sem dar mais explicações, saí da cabine com um sorriso malicioso no rosto e comecei a andar na direção oposta ao lago. Se alguém perguntasse, eu diria que ia dar uma volta, mas, na verdade, eu já sabia onde estava indo.
A loja de bebidas mais próxima ficava em Madele, uma cidadezinha a uns 20 minutos dali. Claro, tecnicamente, nenhum de nós tinha 21 anos, mas isso nunca foi um problema antes. Eu tinha uma identidade falsa, e, embora nunca tivesse testado ela em um lugar tão pequeno e cheio de xerifes wannabe, achei que valia a pena tentar.
Cheguei lá rápido, até porque peguei uma carona com um caminhoneiro que achou que eu era um cara gente boa. Assim que entrei na loja, fui direto ao freezer de cervejas. Era um lugar pequeno, com prateleiras de madeira e uma vibe meio rústica, mas o suficiente para encontrar o que eu queria.
Escolhi dois engradados de cerveja e me aproximei do balcão. O atendente era um cara de meia-idade, com uma barriga de cerveja que parecia mais velha que eu. Ele pegou minha identidade com uma sobrancelha levantada e ficou encarando o documento como se estivesse tentando decifrar um código.
— Você acha que eu nasci ontem? — ele disse, jogando minha identidade falsa no balcão.
— Talvez anteontem. — Eu sorri, mas a piada não ajudou.
Antes que eu pudesse tentar outra abordagem, dois caras e uma garota entraram na loja. Eles eram mais velhos, provavelmente com a idade certa para comprar bebida, mas o tipo de gente que gosta de arranjar encrenca. Eles me olharam de cima a baixo, e eu já sabia que aquilo não ia acabar bem.
Foi quando o Blake e a Anny apareceram na porta. Blake estava com aquele olhar de "o que você aprontou agora?", enquanto a Anny, claramente irritada, cruzava os braços.
— Que diabos você tá fazendo aqui? — Blake perguntou, andando até mim.
— Tentando animar o dia, óbvio. — Dei de ombros, apontando para os engradados no balcão. — Mas o tiozinho aqui não colabora.
Os caras do fundo começaram a rir, e um deles, que usava uma jaqueta de couro com uma águia nas costas, se aproximou.
— Olha só, o garotão tentando brincar de adulto. — Ele disse, pegando uma garrafa de água com gás da prateleira. — Acho que isso é mais o seu nível.
Ele estendeu a garrafa para a Anny com um sorriso sarcástico, e eu soube na hora que ele tinha mexido com a pessoa errada. Anny pegou a garrafa, olhou para ele com aquele olhar que faria qualquer um pensar duas vezes, e, antes que alguém pudesse reagir, ela abriu a garrafa e despejou o conteúdo direto na calça dele.
— Acho que você precisa se refrescar. — Ela disse, com um sorriso desafiador.
O silêncio na loja durou apenas um segundo antes que o cara explodisse.
— Sua vadia! — Ele gritou, avançando para cima dela, mas o Blake foi mais rápido, se colocando entre os dois.
E foi aí que o caos começou.
Os amigos do cara avançaram para cima de mim e do Blake, enquanto a garota deles tentava segurar a Anny. Eu nunca fui de brigar, mas, naquele momento, não tive muita escolha. Consegui desviar de um soco e acertei um direto no estômago de um dos caras.
O Blake estava segurando o outro, enquanto a Anny empurrava a garota contra uma prateleira de salgadinhos. Tudo estava fora de controle, com garrafas caindo no chão e o atendente gritando para a gente parar.
Foi quando ouvimos o som de sirenes ao longe.
— Polícia! — Blake gritou, pegando os engradados de cerveja no balcão.
Eu peguei o outro e puxei a Anny, que ainda estava encarando a garota como se quisesse acabar com ela ali mesmo.
— Hora de correr! — Eu disse, e nós saímos pela porta dos fundos, correndo como se nossas vidas dependessem disso.
Montamos na moto que Blake tinha arranjado, com os engradados equilibrados de qualquer jeito, e aceleramos de volta para o acampamento.
Quando chegamos, ofegantes e cobertos de suor, jogamos os engradados no chão e começamos a rir. Era o tipo de risada que só vem depois de algo completamente insano, e, naquele momento, percebi que, apesar de tudo, aquele verão ainda tinha muito a oferecer.
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Silêncio Mortal
TerrorEm uma cidade pequena marcada por segredos e tragédias, uma série de assassinatos brutais transforma o cotidiano em um pesadelo. Enquanto o medo se espalha, um grupo de jovens tenta desvendar a identidade de um assassino mascarado que parece sempre...
