Um ano e sessenta dias se passaram.
No início, o silêncio era uma fera que não me deixava dormir.
Por cinco meses seguidos, eu liguei. Liguei até decorar cada inflexão daquela voz gravada: "O número que você ligou está fora de área ou desligado." Eu continuava ouvindo até o final, em silêncio, com o telefone pressionado contra o ouvido, esperando que as leis da física mudassem e a voz dela surgisse do outro lado.
Escrevi todos os dias, mas cada tentativa morria naquele único risco cinza na tela do celular. Apenas a droga de um risco que me assombrava.
Depois de um tempo, parei de esperar uma resposta. Passei apenas a observar aquele risco cinza. Era a única prova de que minhas palavras ainda conseguiam alcançar algum lugar, mesmo que nunca chegassem até ela.
Às vezes, eu relia todas as mensagens e tentava descobrir em qual delas ela tinha decidido me abandonar. Nunca descobria. Então escrevia outra.
Mas nada veio.
E não é fácil enterrar alguém que ainda vive.
Para sobreviver, precisei transformar o amor em alguma coisa que eu pudesse odiar.
Comecei pelo dia dos fogos. Passei a odiar aquela noite, as luzes, o jeito que ela sorriu como se o mundo fosse nosso.
Depois, passei a odiar os dias chuvosos, porque o cheiro da terra molhada era o cheiro dela, e ele invadia tudo.
Por último, odiei o chá de canela com maçã. Ela disse que passou a me amar quando bebemos aquele chá pela primeira vez. Eu passei a odiar o gosto, a xícara, o calor nas mãos.
Cada memória que insistia em voltar precisava ganhar um gosto amargo. Era a única maneira de impedir que eu corresse de volta para ela dentro da minha própria cabeça.
Foi triste demais perceber que a minha vida era dividida em apenas dois acontecimentos: a Sol depois do acidente e a Sol depois da Lumar.
Eu nunca tive um período apenas meu.
Não sei quem sou quando não estou tentando sobreviver à perda de alguém.
Quando alguma lembrança dela aparecia, eu pegava mais pesado na fisioterapia da clínica particular que Adélia montara para mim.
No começo, eu realmente acreditava que estava lutando para sair da cadeira. Acreditava que cada exercício, cada movimento, cada minuto a mais era uma prova de que eu ainda estava tentando recuperar alguma parte da minha vida.
Mas, com o tempo, deixou de ser sobre isso.
A fisioterapia virou o lugar onde eu conseguia silenciar tudo.
Se eu lembrava do sorriso dela, fazia mais uma série. Se lembrava da voz, aumentava o tempo. Se lembrava do beijo... eu pedia para aumentar a carga dos eletrodos.
Era um acordo silencioso comigo mesma.
Se a lembrança dela viesse, eu encontraria uma forma de fazer meu corpo gritar mais alto.
Quando os eletrodos encostavam na minha pele, eu fechava os olhos.
- Mais forte.
Eu precisava sentir alguma coisa que não fosse a falta dela. Queria que a dor física ocupasse todos os espaços onde a saudade conseguia entrar. Queria cansar tanto meu corpo que, no fim do dia, não sobrasse força nem para pensar.
Mas a Lumar sempre encontrava um jeito de voltar.
No silêncio do quarto. No cheiro de alguma coisa na rua. Em uma música qualquer.
Eu podia machucar meu corpo até o limite, mas não conseguia apagar alguém que ainda existia dentro de mim.
Então quando o cheiro dela voltava, eu fingia uma alergia. Coçava o nariz até lacrimejar, respirava pela boca até a garganta secar
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
