Roleta-russa

20 4 13
                                        

O tempo acinzentado dessa imensa cidade havia mudado alguma coisa dentro de mim. Se eu olhasse para quem eu era há um ano, já não me reconheceria.

E não se trata apenas da cadeira de rodas. Não são apenas as muletas.

Os meus olhos ainda são os mesmos. Dizem que, depois de um luto, eles nunca mais voltam a ser iguais. A cor continua sendo um verde vivo, tão intenso quanto o de uma folha.

Mas a Sol de antes ainda acreditava que amar era guardar.

Eu guardava as roupas da minha mãe porque ainda tinham o cheiro dela. Guardava os livros porque um dia aquelas mãos tocaram cada página. Guardava os copos, as cartas, os retratos... como se protegê-los significasse proteger o pouco que me restou deles.

Hoje eu passo por tudo isso e não sinto mais o mesmo desespero. Porque, pela primeira vez, olhei para o armário da minha mãe e pensei que talvez estivesse na hora de esvaziá-lo.

Pensei em doar as roupas.

E, por alguns segundos, não me senti culpada.

Foi aí que eu entendi.

Passei tanto tempo acreditando que morreria antes de aprender a viver sem eles, que nunca imaginei que chegaria o dia em que teria forças para deixá-los partir.

Comecei a colocar os livros na mala. Antes de fechá-la, li cada anotação pela última vez. Algumas arrancaram risadas sinceras de mim. Minha mãe tinha uma visão quase infantil sobre Dostoiévski. Justamente o livro dele era o que carregava as observações mais simples. Talvez fosse só uma adolescente descobrindo, pela primeira vez, que um livro também podia mudar uma vida.

Depois fui até o guarda-roupa.

Retirei os vestidos, um por um.

Imaginei minha mãe usando cada um deles. Imaginei as conversas intermináveis com a melhor amiga. Imaginei a ansiedade antes do primeiro encontro com o meu pai, o tempo que ela deve ter passado em frente ao espelho tentando decidir qual vestido usar.

Eu estava dobrando pedaços de uma vida que nunca mais voltaria.

E, pela primeira vez, não fazia aquilo para esquecê-la.

Fazia porque, finalmente, ela já não precisava morar dentro daquele quarto para continuar vivendo em mim.

- Vai doá-los?

- Sim, já fiquei com eles por muito tempo.

- Até os livros velhos?

- Sim, não acho mais que valha a pena guardá-los. E A senhora disse que me daria novos.

- Eu pensei que fossem mais que livros para você.

- A senhora lembra qual foi a roupa que a minha mãe usou no encontro com meu pai?

Adélia me encarou por alguns segundos.

- Não. Eu nunca prestei muita atenção nessas coisas.

- Hum...entendo.

Ela caminhou até a mala e observou os livros e os vestidos.

- A vida acontece, Sol. As pessoas morrem e é isso.

Era uma frase dura. Mas era assim que Adélia sempre lidava com as coisas. Sem se permitir parar.

- Deixa as malas aí. Eu já tenho um lugar para doar. A Isa iria amar a pessoa que irá recebê-los.

Ela se sentou na minha cama.

Por alguns segundos, ficou em silêncio.

Então abriu a bolsa que carregava e retirou uma pasta.

Eu Sou SoLHistórias para pegar e não largar. Descubra agora