MAHARA HASSAN
Hoje era quinta-feira. Meu segundo dia de trabalho no hospital mais cobiçado dessa cidade, Lincoln Wellness. Além disso, amanhã era a apresentação de teatro de Natal da Lasya. E sim, a Kira também ia comigo.
Na segunda-feira, fui me despedir da galera da lanchonete. Não esperava que alguns dos meus colegas ficassem tristes com a minha partida. Um pouco estranho. Querendo ou não, eu via alguns deles como família porque eu passava mais tempo com eles do que em casa. Acabei por chorar, principalmente quando Mason também derramou lágrimas — quem diria que Mason choraria por mim.
Não vou mentir, foi engraçado de assistir. Facilmente seria uma cena de um filme de drama e comédia. A Kira nem vai acreditar quando eu decidir contá-la.
Na quarta-feira, começou oficialmente meu trabalho por aqui. Tudo parecia mais pacífico e teórico naquele dia. Minha supervisora me apresentou o hospital e os diferentes profissionais da saúde: médicos, enfermeiras, assistentes médicos e outros membros da equipe. Ela também explicou algumas regras importantes e os deveres que eu precisava conhecer.
Também conheci Safiya, nome de origem árabe. Uma estudante de medicina da mesma faixa etária que eu, que também trabalhava como assistente de documentação médica. Descobri que frequentávamos a mesma faculdade. Era uma grande coincidência e uma pena que ela estudasse no período noturno, razão pela qual eu nunca a tinha visto lá.
Hoje o dia estava sendo caótico. Era muita coisa para fazer, muita papelada. O lado positivo era que faltavam poucas horas para o fim do expediente. Adentrei na sala de descanso para poder lanchar e fazer a minha pausa de 15 minutos.
Expirei fundo, completamente derrotada.
— Ah! Oii, Mah! — Safiya me cumprimentou.
Safiya era muito bonita. Sua pele negra clara tinha um leve tom dourado que iluminava suavemente seu rosto. Os olhos grandes, castanho-escuros e amendoados, eram cercados por cílios longos e cheios. Seu nariz era estreito, fino e com a ponta empinada, harmonizando-se elegantemente com as maçãs do rosto definidas. A boca carnuda, de um tom rosado natural, completava a expressão delicada de seu rosto.
O hijab rosa que utilizava, levemente drapeado, cobria a maior parte do cabelo, deixando escapar alguns fios cacheados na frente.
O que acabava com o nosso brilho eram essas roupas de padrão hospitalar.
— E aí, tá lanchando o quê? — Peguei a minha lancheira e fui sentar na cadeira ao seu lado.
— Sambusa. São pastéis fritos recheados com frango desfiado e muitos legumes.
Ela puxou a vasilha de vidro para o meu lado.
— Isso tá com uma cara deliciosa. — Comentei, sentindo a minha boca se encher de água.
— É um prato muito popular na culinária somali.
— Calma! Você é somali? — Apontei o dedo, pasma.
— Sim! — Disse feliz. — Você também?
— Apesar de eu ter nascido nos Estados Unidos, a minha família inteira é da Somália.
— Caramba, que legal! Então você tem contato com a nossa cultura? — Indagou, animada.
— Infelizmente, não. Resumindo, não me dou nada bem com a minha família materna, nem com a paterna. É só eu e minha irmã mais nova.
— Não se preocupe! Agora você tem uma amiga que pode te ajudar com isso. — Ela não deixou o clima ficar estranho. — Eu vim para os Estados Unidos com cinco anos, mas ainda mantenho muito apego à nossa cultura. Minha mãe é médica e meu pai, arquiteto. Foi por causa dele que nos mudamos para cá.
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Ritmo da Vida
RomanceVocê já viu um pouco delas em "a lua está linda hoje", mas elas cresceram e agora estão de volta com sua própria história pra contar. Melhores amigas na infância, Kira e Mahara, cruzam seus caminhos novamente em uma nova cidade, Lincoln, na fase uni...
