Kevin
-Por que você continua vindo aqui? Faz uma semana que você praticamente acampa no meu balcão.
Fiquei em silêncio. Na verdade eu estava com vergonha, estava no pé dela eu sabia. Mas não achei que soaria tão mal quando ela falasse. Só queria me tornar normal aos olhos dela de novo.
-Queria te ver.
-Você me vê todas as noites a nove dias. Não cansou ainda?
Não eu nunca causaria de ver ela. E depois dessas palavras até teria ido embora. Mas eu já estava aqui então ficaria até o fim da noite.
-Não.
Agora foi ela que ficou em silêncio. Me olhou fixamente por uns minutos antes do próximo pedido chegar, então se virou. E eu respirei. Aqueles olhos me encarando me constrangem e me apaixonam.
Lara
-Janta comigo? - Senhor Piz disse no final do expediente de ontem.
-Ja disse que não, você é meu chefe!
-Ah sim. Você é politicamente esqueci. -então ele tirou o blazer e colocou uma jaqueta que estava no carro. -Pronto. Problema resolvido não sou mais seu chefe, sou apenas o Enzo. Ou o cara da boate se você preferir. E agora janta comigo?
Eu olhei e analisei.
-Ok. Mas amanhã e é apenas eu jantar. -falei em tom de alarme.
-E porque não seria? Apenas um jantar, a menos que você esteja pensando em outra coisa?! -ele estendeu as palmas da mão ao lado da cabeça em sinal de rendição, e sorriu sarcasticamente.
Apenas olhei e saí.
-Amanhã venho te buscar aqui. -ele gritou.
Eu olhei e sorri.
...
Não era maldade o que eu estava falando. Quer dizer depois dele salvar minha vida naquela noite ele não me incomodava mais. Mas tambem tinha o fato de que não sou boba, sabia o que ele queria. Ele sentia algo por mim só não sabia o que. E eu podia ser muita coisa ruim, mas não gostava nem um pouco de machucar o coração alheio.
-Fala sério agora. O que você faz tanto aqui me olhando? -perguntei seria pro Kevin. Percebi a vergonha dele se instalando novamente. O bar estava quase vazio e eu tinha pouquíssimo tempo pro Enzo aparecer.
-Qual é Lara? Tá mesmo incomodada por eu estar aqui?
Não. Eu até gostava.
-Sim. Não é perfeitamente normal alguém ficar te reparando enquanto trabalha.
Ele ficou em silêncio. Droga, eu estava acabando com ele. E ele não tinha feito nada, só que eu tinha essa política idiota que a jade tinha me ensinado de que um cara que está afim não precisa saber que ele não é o único. Isso é ridículo, mas faz sentido quando você sabe que ele não ta só afim. E Esse era o caso do Kevin, tava na cara.
Se levantou, passou no caixa e saiu. Sem olhar na minha cara e nem dar tchau. Olho ele ir e vejo Enzo para o carro e penso: bem na hora!
-Pronta? -ele pergunta.
-Não né. Mas me dá quinze minutos.
Tiro o avental e voou para o banheiro com minha bolsa. Tiro a calça e coloco um vestido preto com um decote em transparência, sandália e batom vermelho. Ajeito o cabelo rápido fazendo volume com as mãos. Abro a porta e ele estava de jeans, polo preta e jaqueta.
-Está linda!
-Obrigada Senhor.. -ele me olha e eu entendo. -Obrigada Enzo.
Ele sorri e me abre a porta do carro.
...
Jantamos em um restaurante recém inaugurado na rua Augusta. Ele conhecia o chefe que nos preparou um menu especial e ao final veio agradecer nossa presença pessoalmente. O ambiente era um misto de móveis coloniais com um lustre gigante que tinha na entrada. A maioria das mesas tinham casais, com as mãos dadas por cima da mesa e sorrisos bobos.
A nossa conversa pelo contrário foi agradável e amigável. Nada de indiretas da parte dele, apenas elogios educados e gentis. Ele era um cavalheiro, daqueles que saiam direto dos contos de fadas.
Na volta pra casa eu falo do apartamento novo e como estava gostando. A localização era perfeita. Perto do metrô, da padaria e tinha até uma banca de jornal.
-O que aconteceu pra você sair de casa? -ele pergunta.
Eu penso um pouco e abaixo a cabeça.
-Muita coisa. -faço uma pausa e ele não diz nada. -Mas pra resumir briguei com minha mãe.
-A sim. Entendo.
-Acredito que não mas já que estamos nesse assunto. Você não foi um empresário de sucesso desde sempre?
-Não. Tive uma infância feliz no interior, vim pra cá pra fazer faculdade e fiquei. Montei o bar com um amigo meu, depois comprei a parte dele quando ele foi embora. Logo após abri a boate no centro e tenho o projeto de um parque aquático pronto pra sair do papel.
-E seus pais?
-Trouxe eles pra cá assim que pude. Não me via sem eles em lugar nenhum. Meu pai foi muito resistente no começo, disse que não seria sustentado pelo filho, e até brigamos-ele me olhou- mas depois de um tempo eu procurei ele é pedi desculpas. E ele também pediu então vieram. Moram numa casa em Jundiaí com minha irmã mais nova e vou pra lá quase todo final de semana vê-los.
-Você é um filho e tanto. Acho que não conseguiria pedir perdão pra minha mãe.-lembrei do olhar triunfante na plateia ao lado do jurado e depois em casa enquanto falava que ainda me arrependeria.
-Eu também achava que não. Mas ele é meu pai, e pai a gente só tem um exemplar então é melhor não esquecer no fundo da gaveta.
Ele tinha razão, mas tudo é mais fácil quando falado do que quando feito.
Chegamos na porta do meu apartamento e ficamos ali conversando mais um pouco.
-Acho que vou entrar. O jantar foi ótimo, muito obrigado pela noite.
-Eu também gostei muito da nossa noite. Espero não ser a última.
Tava demorando.
- Olha quanto a esse detalhe eu queria dizer, -fui interrompida com lábios macios e quentes encostando nos meus suavemente mas ao mesmo tempo com vontade. Aquela sensação de estou no lugar errado mas não quero sair, pois era assim agora. Eu não queria sair dos lábios dele mas também não podia continuar, ele era meu chefe. Me afastei e terminei. -então dizia que esse detalhe eu queria ir devagar.
-Não foi o que pareceu aqui.
-Não quero que pensem que estou no serviço por estar com você. E também só saímos uma vez, o que você vai pensar de mim.
-Vou pensar que você é muito perfeita. Com certrza é esse o meu pensamento no momento.
Eu sorri. E ele me beijou de novo. Desta vez não me demorei.
-Então eu vou subir e você vai pra casa.
-Está bem. Mas eu vou querer sair de novo.
Eu pego uma caneta que estava no bolso do blazer pendurado no banco de trás, e escrevo meu número na palma da sua mão.
-Já inventaram iPhone sabia? -ele fala olhando a mão.
-Não queria correr o risco de você me enrolar por mais tempo aqui. -falo e abro a porta. -Tchau.
Ele sorri e acena. Passar a noite na companhia daquele sorriso foi sem dúvida perfeito.
...
No dia seguinte fui dar uma volta no bairro. Conhecer os vizinhos, quando volto pra casa olha pelo beco que dá vista pela janela e tem alguém deitado.
Não me aproximei, subi até meu apê e olhei pela janela. Não acreditei no que eu vi. Era Kevin, como ele tinha chegado até ali? Como ele sabia onde eu morava? E porque ele estava desacordado em um beco?
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Fatos do destino
RandomKevin cresceu na periferia, de tudo que podia ser aprendeu com seu irmão que a vida não era justa por isso roubavam para equilibrar as suas vidas. Quando seu irmão morre ele se vê diante de uma promessa que promete mudar sua vida.
