Fragmento 5: Andamento

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"Os Monstros existem , e os Fantasmas também; eles estão dentro de Nós, e as vezes Eles vencem."

Stephen King

Quando Julia abriu os olhos, a sensação de ser atingida por uma onda de choque a despertou completamente. Pondo-se de pé num pulo, ela se sentia desnorteada e cansada, com pontos de luz brilhantes nos olhos. Onde estava? Não sabia, estava meio escuro ou era sua vista ruim? Viu uma brecha aberta e correu para ela. Escancarou a porta e se pôs a correr sem sabe direito para onde. Mas tinha que continuar correndo se quisesse salvar a própria vida.

Antes que conseguisse alcançar a rua um par de braços a envolveu com força e sua boca foi tampada para abafar qualquer tentativa de gritar. Julia sentiu o coração bater descompassado. A pessoa que a segurava respirava calmamente, mas nada dizia. Ela percebia que era alguém mais alto, um homem, pois sentia uma barba malfeita na sua têmpora direita. O que ele faria? A mataria? A violaria? O que?

_ Se eu te soltar, promete que não vai gritar?

Ele sussurrou de maneira quase inaudível em sua orelha direita. Era um tom de medo, de precaução. Se quisesse seu mal, a soltaria daquela maneira? Intrigada com a atitude, Julia assentiu com um movimento positivo de cabeça. A mão em sua boca se afastou e o braço em sua cintura afrouxou.

_ Temos que entrar, anda.

Segurando em seu cotovelo, ele a escoltou no meio da penumbra de volta para o local de onde Julia tinha saído ao acordar. Ele fechou todas as portas que ficaram para trás e ao chegar a um lugar seguro, ele acendeu as luzes, fazendo-a piscar por uns instantes até se acostumar.

_ Você apagou por dois dias. Ainda bem que voltou. Senta, come alguma coisa.

Olhando para o homem ela tentava associar todas as palavras que ouviu mais o cenário em que estava. Percebeu que o homem era um policial civil. Ele usava a roupa preta do GOE, o grupo que era treinado para lidar com situações de crise. Era um traje completo, como se ele tivesse acabado de sair do combate. Coturno, calças pretas com coldre de armas ajustado na coxa, uma faca presa na perna esquerda e outra no cinto, um colete preto com vários bolsos e um pesado fuzil preso num fecho do colete, onde ele podia soltar as mãos para outras coisas. Seu rosto tinha uma leve barba por fazer de uns três dias, seu rosto estava cansado e seu cabelo preto era cortado à máquina, bem rente à cabeça. Seus olhos eram castanhos e apesar de toda a pressão dada pela roupa, eram meigos. Seu nariz era bem desenhado e a boca fina tinha uma cicatriz no lábio inferior que mal aparecia sob a barba.

_ Ei, você me ouviu?

Julia olhou ao redor. Era um apartamento. Pouco mobiliado, com colchões na sala, mas certamente mais aconchegante do que a rua. Numa mesa de vidro tinha comida quente e frutas, garrafas de água e barras de cereal. O estômago começou a roncar e ao sentir que desmaiaria, ela sentou numa das cadeiras. Mais tranquilo, ele soltou a arma do colete, pousando-a num sofá de três lugares, quase ocupando sua extensão e tirou o colete. Usava uma camiseta do GOE preta por baixo.

_ Você disse que eu apaguei por dois dias?

_ Apagou. Trouxe você pra cá na esperança de que acordasse – ele começou a comer da lasanha descongelada e Julia também se serviu – Posso perguntar o que estava fazendo no meio da marginal Tietê?

_ Destruíram a ponte, não foi?

_ Não só ela como todas.

_ O que?

_ Come primeiro, depois eu explico, ou vai desmaiar de novo – ele parecia mais interessado na refeição do que no papo.

Julia achou uma ótima ideia. Puxando a lasanha mais perto de si, ela comeu com gosto apesar de estar um pouco fria embaixo. Raspou o molho com pedaços de pão um pouco endurecidos e bebeu água fresca em longos goles. Pegou uma maçã e a comeu, enquanto o policial tirava pacientemente as cascas de uma mexerica. Sentindo-se satisfeita, ela o observou por uns instantes, pensando no que perguntar. Ele retribuiu o olhar, curioso com a atenta observação. A moça era até que bonita. Assim que a resgatou do meio da marginal, ele buscou informações em sua mochila. Livros de faculdade, uma blusa de frio, um caderno grosso bastante escrito, uma bolsinha com coisas de mulher e sua carteira vermelha com um gato de feltro estampado na parte superior. Não parecia ter 27 anos, parecia bem menos.

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