Fragmento 6: Plano

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"Onde acaba o amor têm início o poder, a violência e o terror"

Carl Gustav Jung

Havia um cheiro de comida no ar. Foi o que despertou Julia. Deitada em um colchão num canto da sala, ela abriu os olhos enevoados e viu o policial de costas, fazendo o café na cozinha. Entre os dois ambientes tinha um balcão e ela podia ver apenas seus ombros e a cabeça. Ela teve dificuldades para dormir depois de tudo o que ouviu e de imaginar que sua antiga vida tinha acabado tão subitamente, sem que ela pudesse realizar muita coisa. Enquanto tentava dormir, ela ouvia os passos de Leonardo pelo apartamento escuro, ora olhando pela janela, ora com o ouvido colado à porta, tentando escutar algo. Se aqueles seres, aquelas pessoas mortas, aqueles zumbis podiam enxergar melhor no escuro, certamente a noite era um ambiente perigoso.

Mas em algum momento, ele acabou dormindo, pois havia uma manta amassada sobre o sofá e em cima dela o fuzil que ele carregava para todo lado.

_ Bom dia.

Ele a observava enquanto colocava comida fresca sobre a mesa.

_ Nem vou perguntar se dormiu bem, sei que não.

_ Como sabe? – ela se pôs em pé e tentou estalar as vértebras da coluna.

_ Você se mexeu muito.

Tentando desamassar o cabelo bagunçado, ela pediu licença para ir ao banheiro, carregando sua mochila no ombro. Dormiu com uma camiseta do GOE e uma calça de moletom duas vezes maior, por isso parecia a menininha que vestiu as roupas do pai. Assim que entrou no banheiro, em cima da tampa do vaso tinha uma calça jeans preta, um par de meias com estampa de zebra, uma camiseta azul com uma estrela brilhante no peito e uma jaqueta de moletom do GOE.

Será que eram da namorada dele?

Assim que saiu já com o rosto menos amassado, com roupa limpa e os cabelos presos, Leonardo comia em silêncio e de cabeça baixa. Ela se sentou ao seu lado e começou a comer, quando viu a observação que ele fez para a roupa.

_ Obrigada – Julia agradeceu.

_ De nada. Você precisava de roupa limpa.

_ Me desculpe a curiosidade...

_ Eram da minha irmã. Ela morava comigo por causa da faculdade. Meus pais moram em Sorocaba – ele a olhou com certa tristeza – Eu... a mandei para um centro de triagem quando a febre começou. E vi quando ela entrou no caminhão frigorífico.

_ Sinto muito.

Soltando um resmungo, ele continuou comendo, como se tentasse afastar uma má lembrança que tinha sido inadvertidamente acessada.

_ O que acontece?

_ Com o que?

_ Com aquele povo nos frigoríficos?

Pelo visto, Julia tinha perdido alguém para um deles. Ele não sabia direito, mas como sabia não haver cura, a resposta só podia ser o extermínio.

_ A gente não pode ficar aqui muito tempo – disse ele de boca cheia e mudando de assunto.

_ Por quê?

_ Olha pela janela depois.

Sem querer esperar, ela deixou o pão meio duro e requentado e olhou pela janela que estava aberta. Havia focos de incêndio no horizonte na direção do centro da cidade. O prédio mais alto que ela conseguia ver estava em chamas, com bolhas de calor estourando as janelas.

_ O que é isso?

_ Purga. Estão limpando a cidade e tirando os corpos.

_ O que?

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