Fragmento 18: Sobrevivência

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"Assim é, se lhe parece".

Luigi Pirandello

 Em sete anos na Polícia Federal, Sâmela lembrava-se de poucas situações em que precisou andar tão armada e em tanta atenção pelas ruas e em missões. Na verdade, tinha passado a fazer trabalho burocrático depois de problemas com o estresse do trabalho. Mas um mundo tomado por mortos que andam e têm fome pela carne humana mudam tudo. Mudam o modo de encarar a vida em si. Mudam o modo como a morte é vista, já que ela é encontrada facilmente em todos os lugares.

Cada vez que saíam do prédio, sua adrenalina era despejada no sangue à velocidade da luz. Toda paramentada para uma missão potencialmente suicida, Sâmela já ignorava o peso do equipamento que tinha preso no corpo. Armas, munições, granadas e uma embalagem de Trident melancia já no fim. Ser mulher em um apocalipse era muito complicado. Sempre vinha um palhaço com aquela história de perpetuar a espécia. Tá bom! Ela meteria uma bala na cabeça antes de deixar qualquer babaca daqueles lhe encostar um dedo. Germano já tinha salvado sua pele duas vezes antes de colegas ensandecidos, com medo do dia seguinte.

Medo era a palavra de ordem. Por mais armas que tivesse, por mais treinamento que tivesse, nada tinha preparado as autoridades para o potencial destrutivo de um apocalipse zumbi, ainda mais em São Paulo, com todo o seu caos contemporâneo orquestrado nas ruas diariamente. Se o homem sempre foi o lobo do homem, o fato de ter homens mortos agindo como caçadores era tão diferente do dia a dia? Sâmela achava que não. Era só mais um dia na cidade morta, mais uma saída para garantir a segurança, a diferença é que um zumbi não escolhe sua presa. Ele não é seletivo, ele rebaixa todos os seres humanos, ricos ou pobres, negros ou brancos, homens ou mulheres em sobreviventes. Apenas sobreviventes.

Germano dirigia a picape, Sâmela ia com ele na cabine, Paulo, Luciano e Fábio atrás, garantindo a passagem tranquila com suas miras bem treinadas. Mesmo calados, ela sabia que estavam todos nervosos. Cada saída era igual. A volta era normalmente diferente. Ou voltavam com suprimentos ou voltavam com corpos de colegas. Encontrar sobreviventes ocultos nas casas era cada vez mais raro, pois com o fim dos suprimentos, as pessoas vinham morrendo de fome.

Havia ainda energia elétrica em algumas partes da cidade. Uma tropa federal guarnecia a usina de Itaipú e garantia o fornecimento. Certas partes da cidade permaneciam no escuro enquanto outras brilhavam como uma supernova para manter os zumbis afastados, que tinham uma natural fotofobia por suas pupilas dilatadas.

O delegado andava encucado com a moça que quase matou no meio da marginal Tietê. A moça era visitada constantemente pela doutora Carla que lhe dava analgésicos e levava comida. Na verdade, ele não sabia o que fazer com ela, que já estava havia quase uma semana na detenção, pedindo para sair de lá. Ninguém gosta de ficar encarcerado, mas ela provavelmente estava no lugar mais seguro da cidade.

Até a Barra Funda o caminho estava parcialmente limpo. Eles tinham conseguido assegurar toda a região da Lapa de baixo até perto da ponte destruída do Piqueri e conseguia manter o mercado municipal do bairro com energia e funcionando. A guarda nacional ocupava o lugar, distribuindo o que havia de alimento ali,que já estava acabando. Também asseguraram os mercados da região, e era com isso que eles mantinham os níveis de comida e bens de higiene e limpeza.

Nem tudo eram flores. Milícias constantemente saqueavam os mercados que ainda restavam na área em que a energia ainda era fornecida. Germano sabia que era uma questão de tempo até a comida industrializada acabar e este tempo estava chegando. Havia membros da guarda nacional nos depósitos de grandes supermercados, indústrias alimentícias, granjas, açougues de grande porte, mas o problema era a distribuição.

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