"Quem é que quer flores depois de morto?"
J. D. Salinger
_ Que foi? – ela perguntou.
_ Não sei, a luz caiu.
Ambos pularam da cama e se vestiram rapidamente. Pegando seu fuzil e o engatilhando rapidamente, ele abriu a porta num puxão rápido com Julia logo atrás segurando uma lanterna. O único som era do vento e das folhas. A garoa continuava. Estava frio. Não havia movimento algum no pátio central. Encostado na parede, ele olhou os dois lados e viu que não havia ninguém.
_ Sobe no muro, vê se a cidade ainda tem luz – ele murmurou.
Concordando em silêncio, Julia ficou com sua arma em mãos e correu para a parte administrativa do motel, subindo pelas escadas internas até o alto do muro, enquanto Leonardo conferia as entradas e saídas do motel. Tudo fechado, trancado do jeito que ele deixara horas antes.
Julia chegou ao topo do muro e olhou ao redor. A escuridão reinava em todas as direções. Até apagou a lanterna para não chamar atenção. Ouviu os passos apressados de Leo nas escadas e quando ele chegou, não precisou dizer nada. O vale onde ficava a cidade tinha sido engolido pela noite.
_ Merda... Agora vai ter mais daquelas coisas por aí – ele olhava pelo binóculo, mas era inútil.
_ O que a gente vai fazer?
_ Se trancar no quarto até de manhã e aí a gente vê.
Ambos voltaram para o quarto, mas só Julia
conseguiu pegar no sono após muito brigar contra os olhos que insistiam em fechar. Leo colocou uma cadeira atrás da porta e sentou, com os pés para cima, esperando. Mantinha seu fuzil no colo, volta e meia cochilando, sem nunca deixar de estar alerta. Mas enfim, a longa noite deu lugar a um amanhecer tímido, sob garoa e ventanias e o mais puro silêncio.
Os dois deixaram o aconchego quente do quarto para apenas se certificarem de que estavam sozinhos, com poucos suprimentos e sem eletricidade. A pouca comida do freezer logo estragaria. Enquanto Julia preparava alguma coisa para comerem, ele continuava com o binóculo no alto do muro, olhando em volta. Não havia mais sons de tiros, nem gritos, carros derrapando, sirenes, nada. Uma angústia tomou o coração de Leonardo. Havia corpos pelas ruas da pequena cidade de São Miguel Arcanjo, mas não havia mais o movimento desesperado que ele vira dias antes. Olhando na direção da estrada, também não havia sinais de vida. Na mata, ele conseguiu ver alguns zumbis zanzando, ocultos pela penumbra das árvores, mas longe deles. Ao voltar para a cozinha, sentindo o cheiro de comida e percebendo o roncar do estômago, ele viu Julia observar o interior do freezer. O degelo tinha derramado água no piso frio.
_ Isso é péssimo – ele resmungou, colocando o fuzil na mesa – A gente não vai conseguir se virar com meio presunto, uma caixa de hambúrguer e pão.
_ O jeito é a gente buscar suprimentos na cidade.
_ É... mas fico pensando se não vai ter milícia por lá... Enfim. É uma coisa que a gente vai ter que fazer. Acho que o melhor a fazer é a gente sair daqui, procurar um lugar que chame menos atenção. Não sei como não vieram ainda pra cá – seu tom era preocupado – Merda...
Comeram em silêncio, apenas saciando a fome, perdidos em seus pensamentos. Leonardo estava com o olhar perdido e um semblante cansado, sinal de que mal dormiu de madrugada. Mas Julia estava mais do que grata de tê-lo ao seu lado. A noite anterior, apesar do final tenso, foi melhor do que podia querer ou esperar. Ele percebeu seu olhar que buscava compreensão e carinho e retribuiu com um beijo molhado. Abraçando-a e envolvendo seus braços naquele corpo quente e macio, ele sabia que precisava ir até a cidade ou estariam condenados a morrer de fome.
Por isso, assim que a refeição acabou, ele engatilhou seu fuzil, pegou munição extra, fechou o blusão e catou a chave da Blazer. Julia estava insegura de vê-lo sair assim, mas quando Leo botava uma coisa na cabeça, ele fazia e pronto. Disse que voltaria com comida, água, combustível e bateria para o veículo, com certeza iam precisar.
E assim, ela o viu sair apressadamente do motel. Acompanhou todo seu caminho com o binóculo do muro do motel. As ruas estavam livres. Carros parados abandonados por seus donos aqui e ali, mas no geral, tudo vazio. Mas em um determinado momento, ela não o via mais, a estrada sumia no começo do vale e a mata encobria a entrada da cidade.
Leonardo diminuiu a velocidade ao ver uma barricada da polícia militar na avenida principal. Mas estava abandonada. Corpos pelo chão, abatidos como animais. Ele passou por cima de um e prosseguiu. Lojas, casas, todas trancadas e com madeira em portas e janelas. Se tinha gente lá dentro, com certeza o observavam. Ele encostou num posto de gasolina e atento, olhando em volta sempre, encheu o tanque e os galões no porta-malas. Vazia e silenciosa, nem mesmo os pássaros sobrevoavam a cidade. Entrando novamente na Blazer preta, ele continuou o caminho por ruas paralelas à avenida principal e viu um mercado numa esquina. Estacionando do outro lado, ele se deixou observar o lugar por um bom tempo. Estava escuro no interior e as portas abertas, caixas e produtos pelo chão indicavam saque. Seguiu adiante. Deveria haver outro mercado por ali. Achou ao descer a próxima rua. Suas portas estavam fechadas, mas nada que sua chave mestra não ajudasse. Estacionando um pouco adiante da entrada, para deixar o porta- malas de mais fácil acesso, ele abriu a porta de vidro e imediatamente apontou o fuzil para o interior. Acendeu a pequena lanterna que adaptou no corpo do 762 e tomando à direita, ele começou a andar. Havia alguma confusão nos corredores entre as gôndolas. Caixas e produtos caídos. Cheiro de frutas no ar, possivelmente já estragando. Parado na entrada, ao lado dos carrinhos, só havia uma leve penumbra causada pela porta aberta. Leonardo parou de respirar um instante para tentar ouvir passos arrastados ou grunhidos. Nada. Não totalmente seguro, ele continuou. Puxou um carrinho para perto e começou a jogar pacotes de macarrão instantâneo dentro dele. Pacotes de batatas, barras de cereal, enlatados de todos os tipos. Com o carrinho já cheio, ele seguiu para a rua e despejou o conteúdo no porta-malas. Fechou e voltou a entrar. Queria água, artigos de higiene, o que pudesse encontrar e logo iria embora. Tinha a impressão de que era observado. Colocando o que pode achar, pois o estoque de água era baixo, ele seguiu para o fundo do mercado. Tinha cheiro de podre por ali, mas viu que estava na sessão de carnes. Foi então que ele ouviu. Passos arrastados e um grunhindo de incompreensão. Abaixando-se para se esconder atrás da gôndola, ele viu uma sombra se mover em sua direção. Quando ouviu o som dos passos acelerar, direcionou sua lanterna e viu um homem com uniforme do mercado e parte dos lábios faltando. Sujo de sangue, parecia que tinha comido da carne armazenada nas gôndolas. Leonardo disparou contra sua cabeça e o estampido ecoou por todo o mercado. E então o som de vários resmungos e passos arrastados surgiram atrás das gôndolas de carne. Havia então um bom motivo para terem trancado o mercado.
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MUNDO Z
TerrorE se no meio de um apocalipse zumbi, você se encontrasse na maior capital do país? O que você faria?