O horror! O horror!"
Joseph Conrad
Julia vinha dirigindo direto pelos últimos 500 km, atenta ao movimento nas estradas. Aliás, pouco ou nenhum movimento nas estradas desde que o fim do mundo começou. Carros abandonados jaziam pelas vias, queimados, saqueados e com partes essenciais roubadas como baterias, pneus, rodas, combustível. Estava cada vez mais difícil achar combustível.
Sentindo as costas rígidas, Julia encostou o carro e olhou os arredores. Nunca se separava de suas armas. Ou melhor dizendo, armas de Leonardo que morrera um ano antes sem que ela pudesse fazer nada. Tinha uma semiautomática presa na calça jeans e carregava o fuzil da polícia que ele a ensinou a usar. Abriu a porta com cuidado e sentiu a brisa quente que soprava naqueles dias. Seria verão? Não sabia.
Estava em uma estradinha secundária do sul do estado de São Paulo. Tinha tentado sair do estado várias vezes e não conseguiu. Havia bloqueios em praticamente todas elas, tanto de milícias quanto de zumbis. Os malditos proliferavam. Havia um cheiro de morte pairando em qualquer lugar que ela fosse.
Pior que os zumbis que teimavam em não morrer eram os milicianos. Na maioria ex-policiais que se aproveitaram do fato de terem acesso a armas, carros e locais seguros e criaram fortificações em quartéis da polícia e do Exército. Pelo visto o governo tinha caído e o que restava da população estava entregue aos carniceiros... e aos zumbis também.
Julia viu de tudo neste último ano. E passou por muita coisa também. Tinha perdido quase vinte quilos com a dieta ruim e a vida nômade. Foi preciso passar a tesoura nos cabelos, pois quase foi sua sentença de morte ao ser pega por milicianos. Felizmente o campo deles fora atacado em seguida por um bando de zumbis famintos e na confusão ela escapou.
Viu refúgios de civis sendo atacados pelos mesmos milicianos, que mataram os sobreviventes para ficar com os suprimentos saqueados de um mercado. Basta ter a vida em risco para que o ser humano mostre ser um animal predador como qualquer outro.
A estrada estava em silêncio. Ouvia algumas cigarras ao longe. Olhou em volta engatilhando o pesado fuzil e viu vários focos de incêndio no horizonte. Então tinha funcionado...
Antes de morrer, Leonardo tinha lhe ensinado técnicas de combate e de sobrevivência, inclusive fazendo bombas caseiras com materiais variados. Inclusive com fertilizantes. Foi assim que ela detonou o muro de um forte da milícia e conseguiu fazer os zumbis entrarem. Quase foi agarrada por um deles.
Por que tanta raiva deles? Eles promoviam estupros coletivos, matavam pessoas se não pudessem alimentar todas e vendiam gasolina e etanol por preços absurdos. Sexo era em geral a moeda de troca.
Um farfalhar chamou sua atenção. Apontou o fuzil para o outro lado da estrada e qual não foi sua surpresa quando uma dúzia de cachorros saiu em disparada do mato e sumiu logo em seguida. Se estavam correndo, boa coisa não era. O farfalhar continuava. Ajeitando o fuzil no corpo, ela respirou fundo e apontou o cano na direção do ruído abafado. Eis que uma sombra cinzenta, com dentes aparentes, um olho faltando e muito sangue pela roupa esfarrapada saiu do mato alto e, a observou por um instante. Julia sabia que o tiro chamaria atenção e ficou na dúvida. Atiraria e limpava o mundo de mais um zumbi ou o deixaria passar para não atrair a atenção de ninguém.
O zumbi apertou o passo da maneira que podia, babando sangue fresco de alguma vítima recente. Vai ver era por isso que os cachorros correram. Voltou para o carro, bateu a porta e antes que o zumbi a alcançasse, Julia deu ré até uns 50 metros e depois acelerou tudo o que pode. O alvo crescia no seu para-brisa, uma mancha cinza e vermelha, grunhindo. A pancada fez o zumbi se chocar contra o vidro e sangue pastoso e escuro encheu o horizonte da estrada. Julia ouviu apenas o baque surdo do corpo caindo no asfalto. Sem nada dizer, ela trocou de marcha e acelerou. A placa mais adiante dizia: São Paulo, 360 km.
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MUNDO Z
HorrorE se no meio de um apocalipse zumbi, você se encontrasse na maior capital do país? O que você faria?