Capítulo XVII - Brianna - "Tudo se resume a máscaras e bebidas"

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Mexi em minha orelha enquanto o Sr. Evans dava uma palestra chata sobre velocidade relativa. Alguns alunos cochilavam em suas mesas, mas ele era lerdo demais para perceber.
- Perdão, professor. - Melissa Thompson abriu a porta de madeira. Ela andou com calma até sua carteira e se sentou com um sorriso sem graça, fazendo com que começasse um burburinho.
- Sem mais interrupções, pessoal. - disse o professor, agitando a mão. - Senhorita Johnson, por favor, depois comunique à diretora sobre seu atraso.
- É Thompson, Sr. Evans. E eu já ganhei a minha advertência. - Melissa respondeu, e o professor a encarou. - E a sala está em silêncio agora, o senhor não tinha que prosseguir?
Ele concordou com a cabeça e continuou sua explicação até o sinal tocar. Esfreguei os olhos com desânimo e peguei minha mochila ao levantar. Ao passar por Melissa, vi que ela olhava com desgosto para a cadeira vazia de Elizabeth. As lágrimas pareceram vir à tona, mas quando ela viu que eu estava reparando, as enxugou depressa.
- A-algum problema? - perguntou, colocando a mochila nas costas.
- No momento, vários. Mas eu acho que essa pergunta devia ser direcionada pra você, não é?
- Não quero falar sobre isso.
- Ah, qual é. Todos vimos Elizabeth ser levada pela polícia de Tenebris. E você está preocupada.
- É claro que eu estou preocupada! Você já foi em um presídio? Eu acho que não. As condições naquele buraco negro são críticas! - ela respirou fundo - Elizabeth não é das garotas mais boazinhas do mundo, mas ela não fez isso. Ela não devia estar lá, isso tudo é uma injustiça enorme.
Melissa mordeu o lábio, segurando o choro. Cheguei mais perto.
- Calma. Os pais dela vão tirá-la de lá, a mãe não é advogada?
- Os pais... - um sorrisinho irônico se formou no rosto dela - Nem sei se devo dizer que aqueles dois são pais. Pais de verdade não fariam aquilo com uma filha. Pais de verdade conhecem o seu filho o bastante pra saber que ele nunca, nunca, nunca iria cometer um crime desse porte, nem deixariam o filho apodrecer na cadeia, e nem permitiriam que algum velho idiota dissesse que seu filho não possui sanidade mental, e nem...
Melissa parou de falar e olhou pra mim, como se esperasse que eu não tivesse ouvido o que tinha dito. Mas apenas franzi a testa e passei o peso do meu corpo de uma perna para a outra.
- Você... Disse que Elizabeth... Não está mentalmente estável? - perguntei e abaixei o tom da minha voz - Ela está louca?
- Ela não está louca! - sussurrou Melissa - Digo, de acordo com aqueles testes idiotas feitos na cadeia, sim. Mas ela só está confusa...
- E os pais?
- Ah, o que eles fizeram? Ahn, deixa eu fazer as contas aqui... NADA! Não fizeram porcaria nenhuma! Apenas deixaram ela ir para aquele inferno, com aquelas pessoas malucas e almoços ruins.
- Você se refere ao Manicômio? - perguntei. Até eu me sentia horrorizada - Manicômio Hollys?
- Fale baixo! - Melissa olhou para os lados e suspirou - Sim. Está lá. Eu me atrasei na aula porque fui visitá-la. E eu nunca vi algo tão...
- Melissa! - uma voz aguda atrás de mim berrou, chamando nossa atenção - Caramba, que demora. O que você está fazendo aqui? - uma garota morena de cabelo chanel andou até nossa direção, e só aí pareceu me notar, me olhando com o canto do olho - E quem é... Essa aí?
- Mabel, que droga, quantas vezes eu já disse pra não me interromper enquanto eu estou conversando com outras pessoas? - Melissa fechou a cara, e a garota revirou os olhos.
- Ai Mel, é que estamos te esperando há um tempo, e eu não gosto de esperar! Anda logo ou almoça sozinha hoje. - e depois olhou pra mim e sorriu - E você fofa, se quiser vir com a gente, eu deixo.
- Obrigada, querida. – murmurei - Mas fica pra próxima.
Mabel pareceu ter levado um soco. Olhou para suas amigas, que seguraram um sorriso. Depois se voltou para mim.
- Haha... Oi?
- Eu não fui clara o bastante?
- Melissa, vamos! - disse ela, me ignorando. E então se virou e saiu pela porta, seu exército de marionetes a seguindo.
Melissa se levantou e respirou fundo. Antes de atravessar o corredor, fez um sinal de silêncio para mim, e eu assenti. Peguei meus livros e saí da escola.
O sol rachava em meu rosto do lado de fora, e, como se fosse automático, olhei ao redor. "Não Brianna, Nick não está aqui". Soltei o ar pela boca e andei até o bar em frente. Sentei-me no banco alto perto do balcão, dando um soquinho na madeira. O garçom colocou em minha frente um copinho com um líquido transparente. Suspirei e o virei em minha boca.
- Antes era forte demais e agora cai como uma luva não é?
- Oi. - murmurei ao ver Tyler sentado do meu lado do balcão. Minha cabeça estava tão cheia que nem o tinha notado ali.
- O que você está fazendo aqui? - perguntou Tyler, franzindo a testa.
- Nossa, mil desculpas por estar aqui. - disse com ironia - Uma garota não pode mais beber?
- Você me entendeu.
- Hum. - murmurei, rodando o copinho com os dedos - E você?
- Gosto de encher a cara. Apesar de amanhã eu estar uma merda... Hoje pelo menos esqueço os problemas.
- E você tem problemas?
Tyler me encarou, como se eu tivesse o desafiado ou algo do tipo. Sinalizou para que o cara atrás do balcão o trouxesse uma garrafa de vodka, e então encheu meu copo. Ele deu um meio sorriso antes de responder.
- Todos temos problemas, Collins. Não é só você.
- Eu não disse isso.
- Ah, claro que não. Se eu te falasse do cachorrinho machucado ali na esquina, você desabaria. Te conheço muito bem. Por que você não corre pro colo do seu papaizinho? Ah não, espera...
- Não mencione meu pai nisso seu idiota, ele morreu faz dez anos.
- E você ainda se faz de coitadinha por causa disso.
- Eu não "me faço de coitadinha", seu imbecil. - disse, cerrando os dentes. De repente, a cara de Tyler parecia um alvo favorável para dar um soco - Você já perdeu um pai? Não, nunca perdeu. Parece fácil de superar, mas não é. Eu amava muito, muito o meu pai. E se você quiser saber, eu já mudei. Não sou mais assim.
- Ah, claro.
- O que você está querendo dizer?
- Que você é fraquinha. Você não aguenta nada. É só passar um ventinho que você já cai. Tenho pena de pessoas assim.
O sangue pulsava com tanta força que eu achei que ia explodir. Ergui o olhar para ele. Algo em minha mente sussurrava "respira, respira...". Eu não era uma pessoa forte, mas de fato não era a Brianna de antes. Apenas dei um meio sorriso, me levantei e ajeitei a jaqueta.
- Eu posso ser fraca, mas pelo menos não transei com a cidade toda.
Virei-me para sair do bar, mas Tyler pegou o meu braço.
- Isso foi um problema, mas já passou, ok.? Eu não sou mais assim.
- Ah, o seu, hum, probleminha já passou. É mesmo. Mas eu acho que sua idiotice ainda continua aí. - me virei e peguei a garrafa em cima do balcão - E eu vou ficar com isso.
Continuei a andar, mas Tyler pousou a mão e meu ombro.
- Brianna, foi só uma fase. Eu não faço mais o que eu fazia antes. Era um erro, mas eu era doente.
- Doente você ainda é. E não me toque. - ele não se mexeu - Você não quer ver o que eu faço com uma garrafa de vidro em minha mão.
Me desvencilhei dele, e depois o fitei, dando ênfase a cada palavra.
- Você me enoja. - me virei para, sair, mas depois me voltei para ele novamente - Quer saber de uma coisa... Olha pra mim. Olha nos meus olhos e diga que não sentiu atração por Elizabeth. Que não quis ficar com ela. Que não quis jogar seu joguinho sujo?
Ele olhou pra mim, mas não respondeu.
- Fala!
- Tá bem! Eu quis! Eu gostei dela, e eu queria que ela gostasse de mim também! É isso que você queria ouvir?
- Você realmente não muda.
Saí do bar a passadas largas. Sentei-me em um dos bancos de cimento de uma praça próxima até acabar com toda a garrafa. O efeito era rápido o bastante para me dar energia para voltar pra casa e encarar minha mãe no estado em que estava. Agora não parecia tão fácil assim me equilibrar no salto alto. Tive que andar apoiada na parede para não me esborrachar no chão.
As chaves da porta pareciam estar embaralhadas em minha bolsa, e eu demorei um bom tempo para abri-la e entrar. Tirei os sapatos e respirei fundo.
- Brianna? - ouvi a voz da minha mãe me chamar da sala. Ela me viu, e seu semblante se escureceu na mesma hora - Brianna, você bebeu? Meu Deus, não acredito! Você bebeu de novo, Brianna!
- Só um pouquinho assim. - murmurei, sinalizando com os dedos.
Meu cérebro não funcionava bem quando ingeria álcool: tudo pra minha era ironia, engraçado. Tudo estava bem. Apesar de estar claro pra minha mãe que tudo estava o oposto de bem.
- Um pouquinho? Um pouquinho? Ah, por favor. Olha pra você! Não se aguenta nem em pé!
- Eu me aguento em pé direitinho. É só você deixar eu passar para causar menos danos. - eu não tinha controle sobre minhas palavras, elas apenas saíam entorpecidas.
- Não, senhora. Pode ir me explicando. Agora. - cruzei os braços e a encarei - Ah, então não vai falar? Já não basta o estresse do meu trabalho, agora...
- Ah, o estresse do seu trabalho? Como se você tivesse do que reclamar do seu estresse. Eu que tenho que reclamar! Minha vida toda eu tive que ficar ouvindo você chegar daquela porcaria de escritório, nervosa com fulaninha, e só por que alguém tinha feito raiva em você, você descarregava em quem? Em mim. Mesmo se eu quisesse te agradar, você sempre, sempre criticava. Não importava o que eu fizesse.
Minha mãe hesitou por um tempo.
- Não, não mude de assunto! Isso não tem nada a ver. Isso também não anula o fato de que você está bêbada.
- Por favor. Se eu cheguei a esse ponto é porque eu tive uma razão pra isso. Sabia que os filhos seguem os exemplos dos pais?
- Eu não bebo.
- Pode não beber, mas olha quem é você é. Ótimos exemplos, ótima vida. Eu estou super feliz. Agora vou pro meu quarto.
- Por que você bebe? Por quê? Eu não aguento mais!
- Eu bebo exatamente pra aguentar. - murmurei, cutucando minha cabeça - É difícil demais. Sabe o que é estar cercada por pessoas que te criticam, que te acham desagradável, inútil? Sabe o que é se sentir inútil?
Respirei fundo e fechei os olhos, soterrada por lembranças.
- Eu era fraca, era boa. Até que eu abri os olhos e percebi que as pessoas boas sempre perdem. E eu descobri da pior maneira. Eu tive que ser humilhada pra saber que não importa o que eu fizesse, enquanto eu jogasse limpo eu sempre iria ficar pra trás. E então eu mudei. E a mudança dói.
- Por que você mudou? - minha mãe parecia estar incomodada.
- Por quê? Quando eu era aquela inocente sem sal todos achavam ruim, e agora que eu finalmente mudo, todos questionam.
- Mas não precisava ser assim.
- Claro que precisava! Ou o quê? Sempre pisavam em mim. Por que não esmagar alguns agora também? Vai impedir? Acontece que ninguém se importa. Ninguém não está nem aí pra você! Só se interessam com eles mesmos! E a boboca aqui preocupada com todo mundo, achando que alguém iria retribuir. Mas só me retribuíram mentiras. Mentiras. Isso faz parte da vida, não é? Uma hora você tem que lidar com alguma que pode te destruir.
- Brianna...
- E aí você simplesmente desiste.
- Tá, mas... Por favor, pare de beber.
- Eu não consigo.
- Pare! É só parar! É tão difícil?
- É! É difícil! Porque só a merda desse álcool e música estão me fazendo sentir feliz agora, e mais nada!
- Você... Você nunca mais vai sair dessa casa. Nunca vai sair, só se eu deixar.
- Você não pode fazer isso. - murmurei, sentindo meus dedos tremerem de raiva - Eu saio quando eu bem entender dessa jaula. E saio pra fazer o que eu quiser fazer, mesmo que eu me ferre com isso.
- Cala a boca, não fala assim comigo!
- Ah, me poupe.
- Brianna Collins Smith! - gritou minha mãe. Nunca tinha a visto tão nervosa assim, a ponto de dizer meu nome completo - Se seu pai estivesse aqui, ele...
- Mas não está! Não está mais aqui! Ele morreu! Será que é tão difícil de entender isso? - berrei, pensando em como foi difícil para eu mesma entender que meu pai tinha morrido - E sorte a dele que ele morreu não é, afinal morto ele não teve que conviver com você!
Ao dizer isso, minha mãe não hesitou nem um segundo: Apenas ergueu o braço e acertou um tapa em minha cara. Virei o rosto para o lado, minha bochecha ardia. Provavelmente as marcas vermelhas dos dedos da minha mãe ficariam nela.
Virei minha cabeça lentamente, meu cabelo castanho tampando meu rosto. Como se num impulso, virei a mão e bati com uma força que nem sabia que tinha no rosto da minha mãe. O estalo sonoro foi grande, mas eu apenas pigarreei e recoloquei meus saltos. Ao andar até a porta da frente, esbarrei o meu ombro no dela para fins, digamos, provocativos. Minha mãe não ergueu seu olhar para mim.
- Vou sair. Tenho que ir ao manicômio. E não se preocupe, eu não vou internar nenhuma de nós duas lá.


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