Saí daquele lugar com a cabeça girando. Eu estava, digamos, sóbria, mas mesmo assim minhas pernas insistiam em me desobedecer. Passei as costas da mão sobre a minha testa quando me lembrei que não devia ir para casa. O episódio anterior com minha mãe não tinha sido muito agradável.
Andava me apoiando na parede, já que estava difícil me equilibrar no salto alto. Lembrava-me das cenas anteriores, desde quando tinha chegado ao hospício até eu sair de lá. Não sabia como Elizabeth aguentava aquilo, estar sempre rodeada de loucuras - literalmente. Lembrei-me do momento em que a garota caiu no chão e começou a gritar e arranhar os braços. Não entendi muito bem o que aconteceu. Apenas fiquei desesperada por ela estar desesperada. Caramba. Acho que o álcool está mexendo com a minha cabeça.
E por fim, por que toda vez em que eu falava sobre Nate, seus olhos se enchiam de pavor e seu semblante ficava obscuro? Eram perguntas que eu não conseguia responder, e não sei se ela podia. Talvez as alucinações dela fossem mais fortes e frequentes. As minhas, de certa forma, já haviam parado.
De repente, tropecei em uma pedra solta na rua e por pouco não me esborrachei no chão.
- Merda de cidade. - murmurei e olhei em volta.
Ajeitei meu cabelo e meu pé, pigarreando. Eu precisava me sentar em algum lugar e por meus pensamentos em ordem. Talvez tomar um ar em algum lugar menos cheio. Comecei a andar em direção a uma rua deserta qualquer, concentrando minha atenção na barra da minha blusa manchada de sangue. Ao ajudar Elizabeth a se levantar, permiti que apoiasse os braços em mim.
Enquanto eu tentava a todo custo colocá-la para dentro da calça, senti alguém esbarrar com força em meu ombro, fazendo com que eu cambaleasse para trás, totalmente atrapalhada.
- Foi mal. - a pessoa segurou meu pulso e me impediu de cair mais uma vez. Que dia lindo para quebrar a cara na rua, não? - Se machucou?
Pisquei algumas vezes, tentando me situar. Franzi a testa, sem entender muito bem o que estava acontecendo e, claro, por que a vida queria tanto fazer piada comigo. À minha frente, não era ninguém mais ninguém menos do que Daniel Young.
- D-dan? Ah, oi, quero dizer, não, eu acho. - gaguejei, desvencilhando meu braço de sua mão grande. De repente, veio em minha mente o que Elizabeth dissera no hospício. A lembrança me deu arrepios.
- Eu só queria saber as horas. - disse ele, casualmente.
- Ah. São nove. E dez. - murmurei, olhando em meu relógio de pulso. Eu realmente não sabia aonde ele queria chegar me perguntando as horas.
- Nove e dez? Hora de matar.
Senti meu corpo inteiro gelar e minhas pernas fraquejaram. Mordi o lábio inferior com força. Eu não sabia se tentava, de alguma maneira, nocauteá-lo ou se saía correndo pela rua. "Foi o Dan!" "Dan matou o Nate!". Agora era a minha vez? Caralho.
- Calma, foi só uma brincadeira! Relaxa. - disse ele, rindo de mim.
- Ah, claro que foi. - murmurei, forçando um sorriso. Eu nunca fiquei tão ansiosa para terminar logo uma conversa. Senti o suor frio escorrer pela minha testa.
- Valeu, agora tenho que ir.
Dan se despediu e foi andando calmamente até o fim do quarteirão. Sua postura estava mais curvada do que antes e sua pele mais pálida pelo que me lembrava. Ele falava de um jeito estranho, como se estivesse sussurrando.
Sentei-me em um dos bancos de madeira de um playground a poucos metros dali. Apoiei minha cabeça em minhas mãos. Por que eu estava tão incomodada por cauda de Dan? Quero dizer, há tantas provas contra Elizabeth, provas concretas. Por qual motivo eu acreditaria... Por qual motivo eu não acreditaria?
Caramba, fazia sentido. Elizabeth definitivamente não poderia ter matado Nate, eu sabia disso. A não ser que ela fosse uma ninja e tivesse matado sem ninguém ver e sem se sujar ou molhar na chuva. Ela estava se arrumando para o teatro na hora do assassinato; eu a vi nos bastidores. E, além disso, Nate tinha conversado comigo alguns minutos antes de eu ir para trás da cortina vermelha e Elizabeth estava lá. Mas Dan... Eu não o tinha visto.
E além do mais, porque ela denunciaria o cara se fosse mentira? Não haveria sentido algum. Ou melhor dizendo, porque ela não prestou queixa à polícia?
- É isso! - sorri, pensando que ia acabar com o caso de uma vez por todas: eu mesma iria falar com a polícia.
- Ahn, falou comigo, moça? - olhei para o lado e vi uma mulher de cabelos cor de chocolate cortados ao pé da orelha. Ela abaixou o jornal e olhou para mim com uma expressão confusa.
- Não, desculpe, estava falando sozinha. - murmurei e ela ergueu uma sobrancelha, voltando sua atenção para as notícias diárias.
Levantei-me e fui caminhando o mais rápido que pude até a delegacia de Tenebris. O vento que soprava em meu rosto estava gelado; não que isso fosse um fato relevante. Pensava em como falar com os policiais e em Elizabeth. O mundo era tão injusto... Se fosse realmente verdade, e eu sabia que era, como era aceitável uma pessoa inocente estar presa em um lugar que não merecia e o verdadeiro culpado estar solto por aí?
Respirei fundo antes de subir as escadas de concreto que davam para uma ampla porta de vidro, abaixo de uma porta enorme escrito "DELEGACIA DE TENEBRIS". Pousei minha mão no corrimão de ferro para evitar cair. Aquele dia realmente não estava muito bom para meus pés.
Empurrei com pouco esforço a porta e entrei no local. Não era exatamente o que pensei de uma delegacia. As paredes eram pintadas de branco e o chão de mármore. Havia alguns armários cinza em todos os cantos. Deviam conter documentos importantes ou algo do tipo. Tinham ventiladores de teto girando na velocidade máxima, mas o lugar continuava abafado. Algumas pessoas trabalhavam ali; umas folheavam uma papelada, outras mexiam no computador, e outras falavam ao telefone com calma e com o tom de voz baixo para não atrapalhar os demais colegas.
Andei até um cara de barba aparada, que parecia concentrado num papel rabiscado. Apoiei o braço em sua mesa, mas ele pareceu não me notar. Passei meu peso de uma perna pra outra e pigarreei.
- Sim? - perguntou. Pelo seu tom de voz, deduzi que estava incomodado de eu estar ali.
- Eu vim aqui prestar queixa. Meu nome é Brianna Collins.
- ...Sim?
- Eu sei quem matou Nathanyel Moore.
O policial coçou a cabeça e ergueu as sobrancelhas, aparentemente impaciente.
- Senhorita, o departamento está ocupado no momento, se desejar, volte outra hora. E se não está presente nos assuntos da cidade, a pessoa já foi acusada e presa.
- É, eu sei, mas vocês acusaram e prenderam a pessoa errada! Elizabeth Taylor é inocente!
- E quem a senhorita supõe que tenha cometido o delito? - perguntou, olhando fixamente em meus olhos.
- Daniel Young. - disse com o máximo de firmeza que consegui.
- Ah, sim. Olhe bem, quero que entenda que existe provas contra a senhorita Taylor, e ela já foi condenada. E no momento, há coisas mais, hum, importantes a resolver. Sendo assim, eu proponho que...
- Olha aqui, tá achando que eu estou aqui de brincadeira, seu corno filho da mãe? - agarrei a gola de sua blusa, o aproximando para mais perto do meu rosto. Algumas pessoas nos olharam, mas eu as ignorei.
- S-senhorita, se continuar procedendo assim, eu sou obrigado a...
- Obrigado a quê? Se sentiu agredidinho? Foda-se, faça o que quiser aí, mas eu estou aqui para que vocês, pelo menos uma vez na vida sirvam pra alguma coisa útil e peguem a pessoa certa. - soltei-o, e ele continuou me olhando com os olhos arregalados; assustado ou muito surpreso - Porque se fosse uma mentira minha eu tinha apenas ligado, e não me dado ao trabalho de vir até aqui.
- Eu... V-vou registrar. - murmurou ele, remexendo algumas gavetas.
- Claro que vai. E, só pra constar, você são uns idiotas mesmo. Deviam ter investigado melhor; isso não é uma brincadeira, é um assassinato. E aí chegariam a uma conclusão de que seria impossível Elizabeth Taylor ter matado Nathanyel. Ela estava ao meu lado no teatro na hora da morte. - Ajeitei minha jaqueta e meu cabelo, me virando para ir embora - Caramba, até eu consigo ser mais homem que você.
Saí daquele lugar, respirando o ar fresco. Eu realmente considerei a ideia de dar uns socos naquela cara vermelha dele.
Porém, ao descer as escadas, percebi que estava sem saída. Não iria para minha casa, claro. Casa da Nick? Não preciso nem dizer a resposta. Não iria voltar ao hospício novamente. Bem, só tinha uma opção...
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Faces Sob Máscaras
Fanfiction"Você nunca realmente conhece uma pessoa antes de descobrir, da pior maneira, o que sua máscara esconde." Elizabeth Taylor é a famosa "valentona" de Royal's College. Após a separação de seus pais, sua única regra é a de que nunca veriam suas lágrim...