Amor, hipocrisia e galinhas

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Não sei pensar sem o coração. Se a poesia não tem essa palavra citada ao menos uma vez, não é minha.

Se é minha, é porque o próprio dói demais para ser chamado. Ou então porque está descansando um bocadinho.

E, mesmo que tenha coração, não precisamos falar sobre amor. Mas na maioria das vezes falamos.

É um tema longuíquo, distante, recorrente e dolorosamente próximo.

Amor é uma bobagem tão grande que qualquer outra bobagem em forma de metáfora é aceita. Também aceitamos analogias; nunca lidei bem com a nomeação de figuras de linguagem.

Amor e coração são baitas figuras de linguagem: o primeiro é impalpável, e o segundo, na verdade, não tem nada dentro. Quem nunca cometeu a bobagem de abrir um coração de galinha e não encontrar lá nenhum sentimento!

Ah, não se permita a desculpa de que é apenas uma galinha. Se galinhas têm coração, também têm amor.

Ainda que seja um amor de galinha. Quão hipócrita seu coração é para desprezar um amor de galinha?

[Perdoa os desvios. Deve ser culpa do coração, que talvez possa carregar apenas um amor de galinha. Vai saber.]

Ana InconsequenteOnde histórias criam vida. Descubra agora