Desaprendi a linguagem dos outros. Toda pateta nesse bar preenchido de barulhos insignificantes e ocos, o movimento alheio me ensurdece de maneira insuportável. Por isso eu me calo imóvel, meu sangue circulando pelas veias com uma velocidade alheia ao vaivém das bandejas pelo ar e dos cachorros vadios pelo chão.
Desacelerar é um pecado, e quem o cometeria por capricho de simplesmente sentar-se e pedir um copo de água da torneira? Desviar.
Desviei de setenta e sete passantes na calçada e recebi o mesmo olhar de todos: uma indiferença educada de imaginação rasa. Estariam ao menos sete dos setenta e sete a cogitar as engrenagens em minha mente que sincronizavam o ritmo veloz de seus passos e buscavam-lhes adivinhar os hábitos e as manias com pouco menos de alguns segundos de observação?
Desaprendi a linguagem dos outros e das banalidades regulares: minhas banalidades soam agora como pedras arremessadas sobre a água de um lago, e os detalhes pulsando com força nos tímpanos fatigados acompanham o ritmo do sangue que circula retumbante e respinga o piso que suplica por uma vassourada, uma nova camada de cera e um pouco de carinho.
Por favor, garçom, veja-me também o kit de primeiros socorros largado ali sobre aquela prateleira do bar.
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Ana Inconsequente
De TodoUm conto, uma crônica curtinha ou um poema feito com palavras inconsequentes, muito amor e atualizações constantes. As fotos do início dos capítulos são de minha autoria ❤️ (Não deixe de conferir Ana Aleatória, que concorre ao #TheWattys2016) Feed...
