Experiência? Não, senhor

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Oi, tudo bem com o senhor? Comigo aqui tudo ótimo. O tempo anda bom, não é? Adoro esse friozinho.
Então, eu tinha uma lista cheia de coisa pra falar, mas acabou que perdi tudo; típica ação de adolescente distraído, pois não. A mais importante, de qualquer jeito, eu tenho aqui na memória.
É assim: o senhor está aí, vivido, com filhos, já plantou árvores e escreveu livros. Experimentou o que não devia, aprendeu o que devia e hoje pode dar lições de moral sem grandes comoções. E eu estou do lado de cá, recém arremessada ao mundo, ainda com os olhos brilhantes e os cabelos escuros, sem uma ruga sequer ao redor dos olhos. E usamos as mesmas palavras ao escrever. É doido isso, mas também é a mais pura verdade. Vai dizer que o senhor não usou nenhuma destas palavras que aqui registro? Talvez não na mesma ordem, talvez não na mesma ocasião.
Posso também citar alguns de seus vocábulos poéticos, como solilóquio, ósculo, insípido, acalanto, e as palavras deslizam por minha língua como se me repudiassem.
A minha conclusão é que tudo depende não da experiência, mas de um status – Guimarães Rosa aglutinava palavras em seus romances sob ardorosos aplausos, e o senhor compõe uma sinfonia de palavras dicionárias sem que o leitor reclame uma vogal ao decifrar seu significado.
Que botão eu aperto, senhor, qual app eu instalo no meu smartphone e quanto custa pra ter essa coisa aí?

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Ana InconsequenteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora