Entrei no supermercado já com vertigens de tanta grandeza das coisas, sendo ofuscada de pronto pela luz branca, mais forte que o sol lá fora. Os monstros-geladeira zumbiam, abarcando meu corpo em um calafrio, e carrinhos abarrotados circulavam por corredores estreitos, estreitos, delimitados por altas prateleiras que não conheciam meio termo: ora transbordantes, ora vazias, expondo seus esqueletos brancos para olhos ávidos consumidores. Caem frutas no chão também branco – mas branco sujo, esse, alternado de ladrilhos brilhantes recém substituídos com veteranos de guerra – e me abaixo no intento de recolhê-las. Pobres laranjas, esmagadas cenouras murchas recusadas por mãos que selecionam. A farinha dança solta e correm crianças com embalagens coloridas seguras nas mãozinhas tão pequenas. Agarro a beirada de um carrinho, sentindo sua frieza metálica, escarneço da pessoa que fui algumas horas mais cedo com um muxoxo de desprezo. Que lista, que nada! Perdi a lista em algum momento de desnorteio e jogo os vegetais que parecem mais tristes na cesta plástica, passando rapidamente pelos bipes barulhentos das caixas registradoras e saindo afobada.
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Estranho fragmento dedicado a todas as pessoas que já me disseram "eu leria até sua lista de supermercado".
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Ana Inconsequente
De TodoUm conto, uma crônica curtinha ou um poema feito com palavras inconsequentes, muito amor e atualizações constantes. As fotos do início dos capítulos são de minha autoria ❤️ (Não deixe de conferir Ana Aleatória, que concorre ao #TheWattys2016) Feed...
