O coração de Lexa

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alguns anos antes...

Quando meus pais morreram, simplesmente deixei meu luto pra depois.

Cancelei todos as saídas com amigos, ignorei todas as vezes em que pensei em sentar no chão do banheiro e chorar até o amanhecer, bebi algumas cervejas, mas, foi só isso.

As pessoas lidam de formas diferentes com o luto. Eu? Eu planejei os próximos 10 anos.

E não descansei até que tivesse certeza de que tudo estava no lugar novamente, como se tivesse a obrigação de arrumar uma cidade depois de um desastre natural.

Quando criança, não tinha o menor interesse em ser aceita pelas outras crianças. Fiz terapia por uns anos, só pros meus pais se sentirem menos culpados pela minha estranheza com o mundo.

Pouquíssimas coisas me faziam brilhar os olhos. E realmente pensei que havia algo de errado comigo, foi um longo caminho até que finalmente aceitasse que sim, há algo de errado comigo.

Tirei 9.8 no projeto de ciências da 8ª série. Lembro de ter feito tudo direitinho, escrevi sobre, pesquisei, separei os materiais, cronometrei o tempo necessário e mesmo assim tirei 9.8 no MELHOR SISTEMA SOLAR COM BOLAS DE ISOPOR JÁ FEITO.

"seu trabalho está fantástico, Lexa... só acho que você poderia ter colocado um pouco mais de... alma."

E eu nunca entendi a lógica de colocar o coração nas coisas que exigem o melhor do cérebro.

Mesmo assim, acrescentei mais um item à minha lista de coisas necessárias para realizar um projeto até o fim e obter o resultado perfeito: alma.

Mas, mesmo assim, talvez, eu ainda não esteja fazendo isso de forma correta. 

PROJETO: ADEN

objetivo: manter o moleque comigo.

nada de namoradas (por enquanto)

faculdade de astronomia (porquê ele quer).

ele jamais deve se sentir sozinho no mundo.

coisas que podem dar errado: NADA de drogas.

vou precisar de: dinheiro, biscoitos de chocolate com castanhas, livros, muita coisa nerd, e passeios ao ar livre.

coadjuvantes no projeto: anya (vagabunda pervertida) e costia (idiota)

Estava muito bom, para um rascunho.

Não é o melhor projeto, mas vai ter que dar. A parte mais difícil é não pensar, principalmente quando essa foto está bem na minha frente. Nossos pais fantasiados de vampiros, Aden de Batman e eu de canguru. Foi no Halloween do ano passado.

Fotografias: um portal mágico para o passado.

Escrevo no outro lado da folha, só pra ler o que pensei depois. É uma forma de não me perder nos bilhões de pensamentos.

A verdade é que, nossos pais nunca mais iriam se fantasiar de vampiros.

Nunca.

Nunquinha.

Cuidar do meu irmão caçula não é um problema pra mim.

Eles não deixaram muito, nossa herança não vai dar pra pagar a minha faculdade, muito menos a de Aden.

Mas, dinheiro não deve impedir que nós dois alcancemos as estrelas.

Tô chorando agora, e essa é uma das raras vezes em que me permito admitir que as coisas podem dar errado. Não gosto que ninguém me veja chorando, especialmente meu irmão, ele ia fazer um milhão de perguntas, mas acima de tudo, não gosto de perguntas que exigem muito de mim ou do meu coração.

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