Capítulo 1

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“Katniss, por favor, comporta-te! Estamos num centro comercial, está toda a gente a olhar para nós!” Eu falo mais alto do que aquilo que devia, para não chamar mais a atenção de ninguém, mas Kat não para de chorar.

“Mas o gelado caiu!” Ela riposta, desatando novamente num choro.

“É o que dá segurares no gelado apenas com dois dedos.” Estou mesmo a perder a paciência e só peço a Beatrice que se despache.

“Eu quero outro gelado!” Kat berra.

“Ou paras de gritar ou bato-te em frente a esta gente toda!” Ela bem sabe que não era capaz de lhe bater. Nunca fui. É a minha menina. Ela faz beicinho, e sei que se não a levar já daqui, isto vai piorar.

“Mas que se passa aqui? Está toda a gente a olhar para vocês.” Beatrice chega e coloca a sua mala na cadeira livre.

“Oh, ainda bem que vieste. Isto está a ser complicado.”

“Que se passa, minha querida? Estás toda suja.” Ela pega num guardanapo e limpa cuidadosamente os cantos da boca de Kat, que não chora, nem se lamuria. Às vezes é irritante, porque se fosse eu já estava a gritar feita doida.

“Eu estava a comer um gelado, o meu preferido. Sabes, aquele que tem morango e chocolate? E depois eu deixei cair e pedi outro à mamã e ela não me deu e eu comecei a chorar.” Ela lamenta-se e eu bufo.

“Kat, a mãe ao chegar a casa dá-te um daqueles bombons que tu tanto gostas, sim?” Ela assente ainda tristonha.

“Posso ir para o baloiço?” Ela pede e vejo aqui a minha oportunidade para estar um tempo a sós com Bea.

“Claro. Mas tem cuidado.” Eu peço e ela salta logo da cadeira. Vejo-a correr até ao pequeno parque, quase deserto. Fica mesmo ao lado do café aconchegador do centro comercial de Londres. É um pequeno espaço que criaram para as crianças. Agradável, até. Kat, nos seus pequenos e trapalhões passos, senta-se e começa a baloiçar. Traz um vestido azul-bebé com uma enorme boneca estampada. O cabelo castanho-escuro cai-lhe pelos ombros e os sapatos brancos já estão um pouco gastos nas pontas, por ela estar constantemente a arrastá-los pelo chão. Kat tem neste momento 4 anos, faz precisamente 5 no dia de Natal. É uma menina tão alegre que só de olhar para a cara dela me dá vontade de sorrir: uns olhos enormes, castanhos, um nariz pequeno e redondo, um sorriso próprio de uma menina de 4 anos, mas cheio de vida.

“Como tens passado?” Eu olho para Bea, e ela percebe o meu olhar. Claro que não estou totalmente bem. Há ainda tanto que não está completo na minha vida. Tanto por explicar. Tanto por fazer.

“Sabes como tem sido difícil” Recosto-me na cadeira, dando uma olhadela a Kat, que continua a brincar alegremente.

“A Kat ainda pergunta muito pelo pai?”

“Oh, se pergunta. Quase todos os dias.” Ainda hoje voltou a perguntar por ele. Nunca o chegou a conhecer, ou se o conheceu foi mesmo quando era uma nova criatura neste mundo cruel, cheio de pessoas cruéis.

“E ele nunca mais te falou?” Aceno que não e ela suspira.

“Nunca mais o vi. Nem eu nem o Harry. Parece que anda distante.” Mais distante ando eu e não o posso demonstrar. Só Deus sabe o que eu faço para dar à minha filha todo o amor e carinho que devia ser repartido pelo pai e pela mãe. Ninguém sabe quanto custa. Mas a culpa foi toda minha. Eu não devia ter sido a rapariga rebelde que queria a todo o custo afirmar-se. Acabei por perder toda a minha liberdade, e mais que tudo, aqueles que sempre estiveram lá para mim e que me tentavam abrir os olhos. Hoje, com 21 anos, já tenho uma filha, com 4. Chamo-me Scarlett e trabalho como secretária numa empresa muito famosa de Londres. A minha rotina diária é sempre a mesma: levar Kat à escola, ir para o trabalho, buscar Kat e ir para casa. Com 20 anos devia estar ainda a estudar para ser uma grande médica ou algo parecido, devia estar a viver a minha vida, passando os dias em discotecas ou a ir a um cinema. Mas cá estou eu, nesta melancólica vida. Claro está que Kat é o sol que ilumina os meus dias. Seria incapaz de abandoná-la como o canalha do pai o fez. Ainda hoje não sei o porquê. Lembro-me das vezes em que ele me dizia que me amava, inclusive na noite em que supostamente criamos Kat.

My Life Without HimWhere stories live. Discover now