O telemóvel toca freneticamente na minha mala, e eu apresso-me a abrir a porta para poder pegar nele.
“Kat, leva este saquinho levezinho para a cozinha que a mamã tem que atender o telemóvel.” Ela corre para dentro de casa e eu deixo cair a mala e bufo quando tenho o telemóvel na mão.
“Santo Deus, Scar! Ia mesmo desligar!” Ela barafusta e eu volto a bufar, pegando lentamente nos sacos e na mala.
“Desculpa, estava difícil encontrar o telemóvel.” Eu digo-lhe e ponho água num copo para beber.
“Ah, não faz mal. Tudo bem.” Ela diz e fala rápido, como se estivesse nervosa.
“Hum… está tudo bem, Bea?” Eu pergunto quando pouso o copo.
“Sim. Hum… quer dizer, não, não está nada bem!” Ela diz, a frustração misturada com a tristeza evidentes na sua voz.
“Queres falar?” Eu pergunto e encosto-me ao balcão.
“Eu, sim, eu precisava mesmo. Mas não pode ser pelo telemóvel. É que… olha, Scar, está tudo uma grande confusão.” Eu suspiro pelas palavras dela caracterizarem tanto como me sinto neste momento.
“Bem, eu ainda não preparei jantar. Queres vir cá jantar?” Eu pergunto-lhe e sei que me ia fazer bem tanto a mim como a Kat, estar com mais alguém amigo cá em casa.
“Iria perturbar muito?” Eu gargalho com as palavras dela e nego com a cabeça, mesmo sabendo que ela não me vê.
“Não, sua tosta, claro que não! Quando puderes vir, é só pegares no carro, já sabes onde moro.” Ela dá uma gargalhada fraca.
“Está bem, vou arranjar-me e vou já para aí.”
“Está bem, beijinhos.” Ela desliga o telefone e eu penso nalguma comida rápida que possamos fazer para depois conversarmos à vontade.
“Kat? Kat.” Eu chamo do fundo das escadas e ela aparece, apenas os olhos dela à minha vista.
“Sim?”
“O que achas de encomendarmos pizza? A Bea vem jantar connosco.” Ela esboça um enorme sorriso que já consigo ver e dá saltinhos.
“Sim, sim, mamã! O Harry também vem?” Eu comprimo os lábios numa linha fina e olho para ela.
“Erm, não, ele não vem. Mas não quero que faças perguntas à Bea, sim?” Ela não responde e desce as escadas apressadamente, olhando para cima, encarando-me.
“Eles estão zangados, mamã?” Eu tento arranjar uma desculpa mas não sei se ela vai acreditar.
“Bem, eles estão a ter alguns contratempos, mas nada de mais.” Ela finalmente sorri, parecendo aliviada, e volta a subir as escadas. O pior é que eu não sei se isto realmente são apenas contratempos. Mas esperemos que não seja nada mais.
“Quando ela chegar avisa-me, mamã.” Kat diz antes de bater com a porta e eu assinto, pegando no telefone e marcando o número da pizzaria que tenho aqui numa gaveta, para casos como este.
Mham, pizza veio mesmo a calhar.
***
“Espero mesmo não estar a incomodar.” Bea repete pela décima vez desde que pôs os pés em minha casa e estou quase para lhe atirar com uma fatia de pizza à cabeça.
“Podes calar-te com isso de uma vez por todas e comeres a pizza enquanto está quente?” Ela dá um risinho enquanto a Kat ri alto e levanta a fatia no ar. “Kat, olha a-“ Tarde de mais.
“Oh.” Ela solta a olhar para a pizza encima do sofá, a manchá-lo. “Oops.” Eu devia ter previsto situações destas quando quis vir comer na mesa pequena da sala. Eu já devia saber que a Kat tem sempre que fazer asneiras, mas mesmo assim continuo a fazer as mesmas coisas. Eu só queria um jantar diferente, senhor.
