Quando acordo, o meu corpo tem marcas de cansaço espalhado por todo o corpo: a cabeça dói-me, as pernas estão pesadas e as costas doridas. Grunho de mim para mim e Liam mexe-se. Deve ter acordado.
“Bom dia.” Eu digo e levanto-me. “Dormiste bem? Desculpa acordar-te.” Ele esfrega os olhos, sonolento, e olha para o relógio.
“Bom dia. Sim, obrigada por me teres deixado dormir aqui. E já estamos um pouco atrasados, não achas?”
“Eu tenho folga hoje, Liam.” Ele assente, como que lembrando-se repentinamente e sorri.
“Pois. A folga. Bem, parece que vou ter que ir sozinho aturar o Sr. Smith.” Eu gargalho e levanto-me.
“Eu vou vestir-me e acordar a Kat antes que ela nos apanhe e… é melhor não pensar nisso.” Eu digo e sinceramente não queria que a minha filha pensasse que eu sou uma vadia qualquer que anda com todos. Ela sabe que o Liam é o meu melhor amigo, tal como ela diz ter a sua amiga Judy, mas sermos melhores amigos não quer dizer que possamos dormir juntos, no entender dela.
Assim que me arranjo minimamente, entro no quarto de Kat e levanto as persianas.
“Toca a levantar, dorminhoca. Bom dia.” Eu digo e beijo-a na testa. Ela remexe-se e levanta-se com um pulo. Eu arregalo os olhos. “Tanta energia.”
“Nem por isso. Só estava a esticar-me e a tentar não mandar vir contigo. Todos os dias a abrires a janela, aff.” Ela ronha e eu comprimo os lábios num sorriso para evitar rir. Ela arranja-se muito calmamente, como se não tivesse que ir para a escola nem nada. Aproveita e experimenta uns quantos penteados, mas no final opta pelo mesmo de sempre, por achar os outros demasiado pomponantes, nas palavras dela.
“Espampanantes, Kat.” Eu gargalho e ela olha-me zangada.
“Eu disse isso.” Ela emproa-se e desce as escadas segurando-se sempre ao corrimão, tal como eu sempre a ensinei.
“Bom dia, Kat.” Ela olha para mim assim que vê Liam a entrar pela cozinha.
“Ele dormiu cá, no quarto de hóspedes, Kat. Acho que não há problema, pois não?”
“Só acho que me devias ter avisado.” Ela diz e mantém o ar altivo. Eu e Liam entreolhamo-nos e não deixamos escapar uma gargalhada.
“Desculpa, realmente devia.” Eu digo enquanto a vejo a espalhar a manteiga num pedaço de pão com a sua faca que não corta.
Durante o pequeno-almoço pouca é a conversa. Ninguém tem nada a dizer e por isso apenas comemos. Assim que verificamos as horas, eu sei que já é tempo de Kat ir para o infantário e de Liam ir trabalhar, por isso ofereço-me para fazer de motorista.
“Obrigada. Não só pela boleia mas por me teres deixado ficar a dormir em tua casa.” Ele diz-me quando estaciono em frente à empresa.
“Oh, somos amigos. Isto é o mínimo que posso fazer depois de tudo o que tens vindo a fazer por mim.” Ele mostra um sorriso satisfeito e sai do carro.
“Eu depois ligo, sim?” Eu assinto e ele fecha a porta. Arranco a toda a velocidade até casa, descansada por poder ter um dia só para mim e não ter que andar com as preocupações do trabalho. Se bem que fora dele tudo se continua a complicar.
Quando me apanho em casa, uma onda de adrenalina percorre todo o meu corpo e eu começo a pegar em todos os utensílios que preciso para uma boa e profunda limpeza de casa: desde aspiradores a panos, detergentes para o chão e a esfregona, o limpa-vidros e tudo o que me vem à mão. Enfio a minha cabeça na dispensa de todos esses produtos e rosno por só ter tralha.
