Capítulo 17

316 16 4
                                        

Já tenho o pijama vestido e estou pronta para aterrar na cama como um avião desesperado por estar finalmente na pista, ao ver a tempestade aproximar-se. Neste caso, nem sei se vem a caminho, se já está a acontecer ou se já está a meio. Tudo o que sei é que estou para lá de cansada e não sinto os músculos, já vejo desfocado e a minha respiração está alterada. Às vezes está rápida demais, ao pensar na Kat e por tudo o que ela passou apenas num dia, e, outras vezes, demasiado lenta, como se me estivesse a apagar. Eu nem estou assim por mim. Oh, claro que não. Eu consigo aguentar muita coisa, o que sei que consigo, aliás. E isto eu consigo, porque talvez soubesse que mais cedo ou mais tarde teria de acontecer. Mas não é por mim. É por ela. Pela Kat. Ela está a viver uma nova etapa da vida dela e está tudo a acontecer de repente, como se não tivessem piedade dela, uma criança indefesa que apenas queria conhecer o pai, ter os avós presentes e ser feliz, como uma rapariga normal, com uma família normal. Ela consegue ser mais normal que muita gente aparentemente normal, porque esta criança, a minha filha, tem uma força inexplicável. Ela é capaz de compreender coisas que nem eu compreendo. À maneira dela, é certo, mas compreende. E talvez sejam as maneiras correctas.

“Scar?” Louis pergunta desviando os olhos da televisão. Os meus já estavam fechados, e eu abro-os repentinamente.

“Hum. Ah, Louis, desculpa, diz.” Eu espreguiço-me no pequeno sofá e ele meio que gargalha.

“Eu ia só dizer para ires dormir. Estás a cair de sono.” Eu sorrio.

“É melhor, sim. Anda comigo, vou mostrar-te o quarto onde vais ficar.” Eu digo-lhe e ele desliga a televisão, subindo atrás de mim. Depois do telefonema deitei-me logo no sofá, por isso a cama ainda não está feita. “Bolas.” Eu grunho.

“Alguma coisa de errado?”

“Sim, quer dizer, mais ou menos. Esqueci-me completamente de te fazer a cama.” Eu digo-lhe e ele comprime os lábios.

“Eu posso ficar no sofá, não quero dar trabalho.” Ele diz mas eu nego rapidamente.

“Nem pensar. A culpa foi minha. Mas já é tarde.” Eu confirmo no telemóvel quando já é quase meia-noite. Noutras circunstâncias eu estaria bem, porque meia-noite não é propriamente a minha hora de sono, mas hoje não estou mesmo bem. “Bem, eu improviso uma cama no meu quarto, se não te importares.”

“É mais se tu não te importares.” Ele diz passando a mão pelo cabelo.

“Oh, na boa.” Eu entro no meu quarto mas ele fica à porta. “Podes entrar, Louis.” Eu digo e ele dá um passo, entrando. “Hum, por acaso és algum vampiro ou algo assim?” Ele olha-me estranhamente e eu rio. “Não, é que só ao te convidar para entrares é que entraste. Se bem que entraste em minha casa sem eu te convidar, por isso estou de consciência tranquila.” Ele esbugalha os olhos como se eu fosse maluca. “Oh, vá lá.” Ele desmancha-se a rir. “Não queria ser mordida por um vampiro durante a noite.” O riso dele torna-se num mais perverso e eu fuzilo-o com o olhar, o que o faz levantar as mãos no ar.

“Vá, deixa-me ajudar-te com isso.” Ele diz e esticamos uma colcha que eu tinha para aqui, arrumada no chão, para ele se poder deitar. Uns lençóis com ursinhos e uma almofada e está feito.

“Gosto particularmente destes lençóis.” Ele diz-me e eu rio.

“Oh, são fofos.” Eu deixo-me cair de costas na cama inventada e respiro fundo. “E confortáveis.” Acrescento e ele deita-se a meu lado.

“Mais calma?” Eu olho para ele.

“Bem, não muito, mas agora a minha preocupação é a Kat.” Eu digo e ele sorri. Um sorriso sincero, eu consigo vê-lo. Os olhos dele observam-me.

My Life Without HimWhere stories live. Discover now