POV Bea On
“Achas que lhe devíamos ter dito?” Harry pergunta na viagem de regresso a casa. Fico por uns tempos pensativa. Não lhe devia esconder nada, mas acho que não era o momento apropriado, ainda por cima Kat estava connosco.
“Não sei, Harry. Ela mais tarde ou mais cedo vai ficar a saber.” A verdade vem sempre ao de cima, sempre me ensinaram. E Londres, apesar de grande, tem muitos pontos onde vai lá parar toda a gente. Harry olha-me, e a preocupação é evidente em ambos.
“Eu só não quero arranjar sarilhos para nenhum dos dois.”
“Não vai acontecer nada.” Eu coloco a mão por cima da sua, que está quente e suave, e ele sorri-me. Cada vez gosto mais dele. É tão simples, tão humilde. É a metade de mim.
“Chegamos.” Digo e saímos do carro. A temperatura é diferente, mas apesar de mais frio, a noite mantém-se amena.
“Amo-te.” Solto e ele olha-me, visivelmente apanhado de surpresa, mas depois sorri meigamente, caminha até mim e beija-me.
“Amo-te.” O meu estômago vira e abraço-me a ele. Sabe mesmo bem.
POV Bea OFF
Acordo a meio da noite com uma vontade enorme de beber leite com café e comer uma torrada. Se neste momento estivesse a morar com alguém e me acontecesse isto teria posto a hipótese de estar novamente grávida, mas ponho esse pensamento para trás e salto da cama, quase correndo escadas abaixo até alcançar a cozinha.
Assim que preparo o leite, a torrada está a fazer e o cheiro que deita dá-me ainda mais vontade de comer. Ponho tudo em cima da mesa, depois de pronto e barro a manteiga na torrada. Os meus olhos comem-na, e depois a minha boca saboreia-a.
Passado algum tempo, as escadas rangem. Normalmente teria medo, porque estava sozinha em casa e podia estar a ser assaltada, mas quando olho para a porta e vejo Kat, esfregando os olhos lentamente, o meu coração acalma. Ela caminha em passos curtos, a cambalear e a lamuriar algo que ainda não consegui perceber.
“Kat quer colinho.” Eu sorrio com todo o mimo que esta menina transporta com ela. As minhas mãos envolvem o seu tronco e sento-a nas minhas pernas.
“E o que anda a Kat a fazer aqui?” Eu pergunto quando ela encosta a cabeça na curva do meu pescoço e enrola a sua pequena mão em volta dos meus cabelos.
“A Kat ouviu barulhos e ficou com medo e veio para junto da mamã.” Eu sorrio.
“A Kat não precisa de ter medo. A mamã está aqui.” Ela abraça-me fortemente. “Agora a sério, Kat. Está tudo bem?” Ela olha-me. Os seus olhos estão mais húmidos.
“Estou com medo, mamã.” A conversa já não me agrada e eu pouso-a na mesa, para ser capaz de olhar para ela e observar todas as reacções dela.
“Fala comigo. O que aconteceu?”
“Eu estava a sonhar com o papá.” Ela diz num fio de voz e o meu coração gela. “Ele era mau. E agarrava-me com força. Não queria que eu ficasse contigo. Ele queria levar-me para longe!” A voz dela aumenta de volume e as pernas estão trémulas. Seguro-lhe as mãos, afagando-as.
“Enquanto estiveres comigo nada de mal te vai acontecer. Eu prometo, Kat.” Ela faz beicinho e eu limpo-lhe as lágrimas. Detesto ver Kat assim. Ela é tão cheia de energia, tão positiva e normalmente é ela quem me puxa para cima quando me apetece cair.
“Agora vais dormir que isso amanhã passa, sim?” Ela nega com a cabeça e prevejo a birra que vai fazer se não a deixar dormir na minha cama.
“Posso dormir contigo? Por favor!” Ela implora.
