Capítulo 43

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Minha vida continua um tanto agitada nos dias seguintes. Fãs acampam na frente do meu prédio, dormem em barracas e esperam o dia inteiro pelo momento em que saio de casa. Não importa o horário: sempre há alguém me esperando. Começo a ficar assustado, e penso em alternativas.

Meu prédio é antigo e pequeno, porque era tudo o que eu podia pagar até algum tempo atrás. Não há saída pelos fundos. Tento me disfarçar. Uso boné e óculos escuros, coloco moletom para tapar as tatuagens. Não adianta. Eles são espertos, e me reconhecem facilmente.

Avançam sobre mim, me pedem fotos e autógrafos. Alguns querem entrar no meu apartamento, e, embora uma ou outra garota gostosa e interessante esteja no grupo, não quero receber todos. 

Nos dias seguintes, tento usar roupas diferentes. Tento uma peruca. Ainda assim, o prédio é pequeno e não há muitos moradores. Eles desconfiam quando veem um homem deixando o local sozinho. Me seguem, me observam, fazem perguntas, questionam meu nome. Qual é o problema desse pessoal? Eles não têm nada para fazer? Não é possível que um bando de jovens acampe em frente à casa de um artista em plena tarde de terça-feira. Eles não precisam trabalhar? Onde estão seus pais, seus responsáveis? Garanto que são eles quem os sustentam, mandando mesada quando pedem. Eles mantêm a ilusão, a fantasia de que é possível desperdiçar horas perseguindo um famoso apenas pelo prazer de vê-lo, tirar uma droga de foto que em nada mudará suas vidas. Olho para aqueles jovens amontoados, que admiram meu trabalho ao invés de fazer o seu, e ao mesmo tempo em que me sinto lisonjeado, sinto pena.

— Você tem de acabar com isso — eu peço ao Diabo, quando ele aparece caminhando ao meu lado.

— Por quê?

— Não tenho mais privacidade.

— Você pensou que era possível ser muito famoso e ter privacidade ao mesmo tempo?

Ele ergue as sobrancelhas.

— Alex, se quer que todo mundo saiba seu nome, precisa enfrentar as consequências.

— Só preciso de um pouco de paz, está bem?

Chegar e sair de casa sem um bando de malucos me perseguindo.

— Isso estava no contrato.

— Eu sei disso! — grito, sem me controlar.

Ele me olha torto.

— É melhor medir o tom da voz.

— Desculpe — digo, e caminhamos em silêncio por um tempo. — O que podemos fazer a respeito? — pergunto, minutos depois.

— Não posso eliminar seus fãs. Você precisa deles, se quer ser famoso.

— Que opções tenho, então?

— Você pode lutar por sua privacidade, como os artistas geralmente fazem.

— Como?

— Comece pelo lugar em que você mora. Seu prédio é insustentável. É pequeno demais, não tem segurança nem saída alternativa. Nenhum artista que se preze pode morar em um lugar como aquele. Mude-se para um edifício melhor, um condomínio fechado. Você pode pagar por outro padrão de vida, agora. Além disso, precisa mostrar às pessoas que está ganhando dinheiro. Faz parte do show.

— Vou começar a procurar por um apartamento novo.

— E é bom tratar bem os fãs.

— Por quê?

— Nenhum artista vai longe, se desprezá-los.

— Eu sou apenas um músico que não deseja ser perseguido por malucos.

— Quando você assinou o contrato, seu objetivo não era ser "apenas um músico". Era algo muito maior.

Eu só entreguei o que você pediu, então talvez seja hora de pensar melhor no que você almeja.

Eu não respondo.

— Alex, quanto mais louco um fã parece, mais devoto ele é. Essas pessoas fazem a sua fama, trazem dinheiro e o divulgam.

— Então eu vou precisar de uma casa maior. Uma mansão.

— Tudo bem.

— Posso ter ofurô? Sempre quiser ter um ofurô.

— Pode.

— E uma sauna.

— Ok.

— Eu também queria ter um elevador interno. Sei que quase não vou usar, mas sempre achei um luxo ter elevador dentro de casa. Não é para qualquer um.

— Não é mesmo. Algo mais?

— Não, por enquanto é tudo. Desculpe. Que falta de educação a minha. Eu sequer perguntei como você está. Como você está?

— Sabe, você é um tipo raro. As pessoas não costumam perguntar ao Diabo como ele está.

— Talvez presumam que você esteja sempre bem.

— Não é verdade. Eu também tenho sentimentos, sabe? Também sofro, às vezes, e preciso conversar.

— Acho que eu sei do que você precisa.

— Do quê?

— De um abraço.

Ele fica constrangido.

— Não sei, eu...

— Todos nós precisamos de um abraço, de vez em quando —— afirmo. — Muitas vezes, quando estou triste, paro e me pergunto: quando foi a última vez em que ganhei um abraço apertado de alguém? Eu nem sei a resposta.

— Olha, não sei se é uma boa ideia. Eu sou bastante quente...

— Venha aqui.

Ele fica parado, o corpo duro como uma estátua de cera.

— Não se acanhe — digo.

Eu me aproximo do Diabo e então dou um abraço forte nele, que dura algum tempo. Posso sentir a tensão se desfazer em seu corpo. Ele estranha, mas acaba se acostumando e, ao final, relaxa. Quando me afasto, disfarço e enxugo o suor da testa com a manga da camisa. Ele é mesmo quente.

Do Jeito que o Diabo GostaOnde histórias criam vida. Descubra agora