Hoseok estava preocupado com o amigo, o suficiente para não parar de pensar sobre o que acontecera. Faltaria no dia seguinte para estudar com ele, uma vez que mesmo não sendo o mesmo curso tivessem matérias em comum, não teria problema atrasar as outras um dia ou dois enquanto o outro perdia semanas...
Voltando da padaria notou que o carro não estava mais no lugar, então voltou para o quarto e viu as cortinas balançarem à privacidade do morador, que novamente não ouviu-o chamar. Chamou mais alto, praguejando quando percebeu que poderia estar dormindo pelas medicações e pelo o que quer que tenha acontecido no dia anterior.
Pegou o pacote de pão e tirou a manteiga da geladeira, jogando-os em uma sacola antes de ir tocar a campainha algumas vezes. Fez a volta novamente, então, indo para os fundos que estava trancado dessa vez. Todavia ainda havia uma chave sob o vaso, enferrujada por tanto tempo sem uso, e ainda funcionava.
Anunciou-se, receoso de assustar o amigo ou pegá-lo desprevenido, e como não ouviu resposta achou, mais uma vez, que estivesse dormindo. Bateu à porta do quarto e entrou. Imobilizado pelo choque antes de deixar a sacola cair.
— J-Jin! — Hoseok falou ser ar.
Correu para quem mantinha a cabeça baixa assim que viu o fio em seu pescoço, uma vez chamado levantou o rosto, porém não os olhos. Sentou-se e o fez levantar mais, vendo os olhos vermelhos e cansados. Insones.
Tentou mover o fio, e viu o pescoço vermelho de Jin, lutando contra si mesmo para pegar o celular e fotografar os olhos e o fio no pescoço e o nó na guarda da cama antes de pensar no que fazer. Secou os olhos úmidos e revirou as gavetas em busca de algo que pudesse cortar, falando ao perceber que Jin parecia em choque até para se mover.
— Eu não acredito que ele fez isso... Foi ele, não foi? — disse Hoseok agitando-se. — Quem mais seria? Foi ele quem te bateu ontem, não é? Pode me dizer, Jin! Pode dizer, ele não fará nada com você...
— Precisa ir embora... — Jin pediu.
— Nós precisamos. Não vou te deixar aqui!
— Você não entende... Ele... cuida de mim.
— Isso não é modo de cuidar de alguém, Jin! Onde tem a merda de uma tesoura, Jin?
— Não tem... eu poderia...
— Eu não demoro.
— Vá embora.
Tentando manter uma postura confortável para não sufocar Jin fechou os olhos. Talvez conseguisse dormir um pouco. Não demorou a sentir o laço ser seguro e tentou, fraco demais pra isso, impedir que Hoseok cortasse.
— Vai ficar tudo bem, certo? Vou te levar pra minha casa. E chamar a polícia. — prometeu Hoseok.
Ignorado quando o outro apenas moveu-se para se acomodar e deitar após a noite insone, levantando o odor da sujeira por não ter podido ir ao banheiro. Hoseok o sacudiu mais até entender como o outro poderia estar tão cansado. Perdida totalmente a fome secou os olhos mais uma vez, frustrado e dividido em cuidar do amigo lhe dando algum descanso, ou notificar a polícia.
No meio da tarde percebeu que Jin acordava com soluços de um mínimo choro e passou os dedos nos cabelos lisos, explicando seu plano.
— Ficará tudo bem, vamos para a minha casa e avisaremos a polícia. — Hoseok prometeu novamente.
— Ele cuida de mim, você precisa ir embora. — pediu Jin.
— Isso não é cuidado, Jin. Isso é... abuso. É tortura! Vamos, se levante.
Jin levantou-se, sentando na posição anterior ainda com as pernas cruzadas, resistente.
— Precisa ir embora, se quer ajudar. Ele cuida de mim e... ele pode te machucar. Pra me proteger ele pode... por favor, vá embora.
— Jin, eu... vou avisar alguém. Vou avisar alguém e voltarei. Eu voltarei, certo? — prometeu.
Não queria ir, no entanto pegou a sacola caída no mesmo lugar e saiu. Trancando a porta e guardando a chave no bolso uma vez que nunca era usada. Pegou a chave da frente, também. Igualmente enferrujada, esquecida pela falta de uso...
☼☼☼☼☼
Sabia ter decepcionado novamente, mesmo depois de decidir não contar sobre o amigo. Então estava descalço sobre o piso amadeirado, com o fio ao lado da tesoura, próximos aos seus pés. Desde que levantara estava ali, esperando-o chegar por não ter noção de quando encerrava seu expediente. Há tempos poderia dizer que não sabia mais como ver horas.
Ao ruído da fechadura tremeu, e quando o homem parou diante de si. Um alívio breve quando a porta foi fechada e foi deixado ali, com o outro ainda terminando de chegar a casa, como no dia anterior, sem que Jin se movesse. Tremeu mais uma vez quando voltou a parar na sua frente, olhando os objetos no chão como ele.
— Como isso foi acontecer? — Ji Jin-Hee questionou.
— Desculpe. — falou Jin.
— Como isso foi acontecer, Jin?
Sujou-se sob pressão, ao que o outro preferiu ignorar por hora.
— Fiz uma pergunta, Jin.
— E-eu... estava na cama. Estava na cama e eu... e-eu cortei. Estava cansado. — falou Jin.
— Não pode dormir até sua mente aprender. Sabe que não deve pegar tesouras e outras coisas que cortem.
— Desc...
— Não. Não o desculpo. Sabe como é perigoso pra você, que é instável... Tem certeza que foi você?
Jin não respondeu, sem querer mentir novamente e dando ao homem a dúvida se teria sido ele realmente.
— Vou sair e comprar algumas coisas. Não saia daqui, certo? — Ji Jin-Hee ordenou.
— Certo. — concordou Jin.
— Não se mova, Jin. Falo sério.
Deixou as coisas sabendo que mesmo exausto o outro não moveria os pés. Lançou um olhar à casa vizinha e tornou a tirar o carro da garagem. Hoseok entrou rapidamente, pela frente sem se importar com os vizinhos. Tinha a chave e no mínimo achariam que ajudava na casa. Parou ao ver Jin parado ali.
— Ele não vai demorar, tem que ir embora. N-não devo mentir para ele novamente... — Jin pediu.
— E eu não posso sair daqui sem você! — teimou Hoseok.
— Eu não vou melhorar se você ficar. E-eu preciso melh... não su-suporto mais...
— Não tem que suportar, esta bem? Tem apenas que vir comigo... Confie em mim, sim?
Em poucos minutos ouviu o carro chegar, e agora Jin deixava o rosto escorrer implorando que fosse embora, sem se atrever a olhá-lo. Por mais que o ferisse deixá-lo ali não poderia fazer nada se fosse preso. Saiu pelos fundos.
— Bom, Jin. Muito bom. Estou feliz que tenha me ouvido. — elogiou Ji Jin-Hee. — Ficarei ocupado nas próximas horas, então limpe isso, e sua cama deve estar molhada novamente, não é? Arrume-a e tome um banho, está fedendo. Avise se precisar de ajuda. Lembre-se, estou orgulhoso do seu esforço.
Jin sentiu-se um pouco feliz. Eram muitas as críticas que recebia, todavia sempre elogiado pelos mínimos acertos e evoluções tidos, o que o fazia acreditar estar melhorando a pequenos passos, o que considerava um avanço.
Percebeu seu padrasto colocar cadeados em todas as janelas, confirmando as trancas das duas portas, antes de finalmente ir limpar-se na água fria, o que ouvira dizer ser ótima para a pele e para despertar. Com mais banhos gelados como aquele, mesmo durante o inverno, esperava que seu cérebro se concentrasse em melhorar e pensar normalmente, sem chorar cada vez que lembrava-se da mãe ou a cada situação por menor que fosse.
A lembrança o feria tanto que tentou chamar pelo padrasto antes de perder a consciência, que percebendo a demora encontrou-o dentro d'água com o braço e cabeça pendidos para fora como se tentasse sair. Chamou-o algumas vezes, conseguindo alguma reação ao lhe dar sal, trabalhoso em colocar em um roupão antes de ajudar a chegar à cama.
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Wattpad - O Roubo do Sorriso
FanfictionSem perceber ter perdido o sentimento mais importante, descobre que ninguém poderá lhe devolver a alegria. Todavia aqueles que apontam o caminho nunca deixarão que o trilhe sozinho. Atenção: este romance não é um romance, e esta história de amor não...