Capítulo 5 - Pequeno Engano

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Eu nunca recebi uma carta. Mas sempre tive medo de isso acontecer.

Li um conto uma vez, sobre um rei que recebia uma carta com veneno. Sempre achei que se acaso eu viesse receber uma carta na vida, ela viria por um dos três motivos:

1 - É uma carta de amor falsa.

2 - Ela traz uma péssima notícia.

3 - Alguém pois veneno nela e quer me matar.

Parece ironia do destino, mas são exatamente oito cartas. Olho pra elas e dou risada. Tem que ser meu número da sorte. Desfaço o laço que as envolve, e ponho os oito envelopes sobre a bancada da cozinha. Todos tem selos iguais, com o símbolo de um passarinho nele. Eu não entendo de pássaros, mas parece um sabiá. No verso, não há remetente. Está apenas escrito meu endereço numa caligrafia delicada, que desenha meu nome. Num cantinho de cada envelope tem um número de 1 a 8. Acho que deveria lê-las em alguma ordem, mas confesso que tenho medo de abrir.

Tenho medo porque enquanto elas estão fechadas, posso especular o que elas são. Se são minha morte, uma notícia ruim, um amor falso ou algo pior do que o que imaginei. Quando abri-las preciso encarar o que realmente são.

Pego o envelope número 1, quando decido que minha curiosidade é do tipo que "matou o gato" e que eu preciso abrir tudo isso e ler AGORA. Apenas tento ter cuidado pra não rasgar os envelopes, o que faz meus dedos vacilarem. Sendo sincera, tenho medo do que vou encontrar quando abrir.

"16 de Agosto de 2014.

Cara Enna,

Estou escrevendo pra dizer que houve um grande erro essa semana. Eu não podia esclarecer o engano, ou você ia me descobrir e isso não é o que eu quero agora. Não desse jeito. Bem, sua irmã recebeu uma carta no começo da semana, que na verdade era pra você. É idiota escrever uma carta quando a gente gosta de alguém? Talvez. Mas pior ainda, é fazer a besteira de colocar a carta entre as coisas da garota errada. Eu ia por dentro do seu livro de inglês. Mas agora eu sei que confundi com o de Hely.

Acabou que por não ter meu nome nela, ela não levou a lugar algum. Acho sorte minha e ao mesmo tempo um azar. Queria que você soubesse que as coisas que eu tinha escrito eram pra você e não pra ela. Eu devia ter posto seu nome.

Sinto muito ser um idiota."

Meu coração ficou parado. Ele não se mexia, não bombeava meu sangue. Não fazia nada. Por que – Meu DEUS! – Eu lembrava dessa carta. Hely leu ela para todo mundo e eu me senti a pior pessoa do universo naquela semana. Ela não estava endereçada a ninguém, mas a encontramos em casa, na mochila de Hely. Algumas coisas na carta falavam da "sua irmã chata e egocêntrica", e eu fiquei muito feliz que minha irmã tivesse um admirador secreto. Mas triste também porque era sempre, sempre assim.

Porque sempre foi.

Hely tinha os caras que a idolatravam e eram românticos, e atravessavam a cidade andando de ônibus com balões de coração pra pedi-la em namoro. E eu tinha uns caras, que diziam "Você é diferente da sua irmã, né?". Como se eu fosse uma grande decepção. Por isso nunca fez sentido que a carta fosse pra mim.

Sempre foi obvio que era pra Hely.

Nunca soubemos quem escreveu a carta. Mas enquanto minha perfeita irmã, Hely, guardava o envelope colorido como se fosse um presente de Atena e mostrava ela a todo mundo, eu me corroía por dentro sem dizer nada. Se eu falasse que as coisas escritas sobre a irmã dela na carta estavam doendo, ia parecer inveja. E não era.

Mas eram coisas que você não espera ouvir. Principalmente porque embora eu soubesse que não havia muitas pessoas no mundo que me amavam, eu não estava esperando isso. Não esperava ouvir coisas ruins sobre mim, de alguém que eu nem sabia quem era.

Faz quase quatro anos, agora. E eu ainda lembro mais ou menos daquela carta. Lembro dela afetar algo dentro e mim.

"Olá,

Desculpa. Sei que escrever cartas é estranho.

Falta pouco pra nosso formatura e embora tenha mais de um ano que eu esteja sentindo essas coisas, eu só tive coragem de falar agora. Porque, sabe, eu acho que você é o tipo de pessoa sensível que me entenderia. Estão acabando as aulas e estão acabando as chances de eu te dizer as coisas que eu sinto.

Sei o que falam da sua irmã, sobre como ela é. E acho que entendo como você sente a tendo sempre por perto. Eu acho que sou um caso à parte, porque olho pra você e parece que não existe nenhum outro foco de luz no universo. Eu adoro o jeito como você sorri e fala baixinho, mesmo que eu mal possa escutar sua voz desse jeito. Adoro seu cabelo, porque ele tem um cheiro bom de flores. Adoro tudo em você e de verdade – eu sinto muito – mas as coisas que as pessoas costumam a admirar na sua irmã, me enojam.

Talvez eu esteja sendo maldoso, mas ela parece egocêntrica e tem um jeito irritante e chato de falar. Conversar com ela não é tão divertido como quando eu posso falar um pouco com você.

Você devia ser a estrela que sorri mais. Devia ser aquela que capta pra si e reflete, toda a luz solar, a espalhando num sorriso quente.

É assim no meu mundo. Assim que eu te vejo.

É assim, por que eu te amo.

Devia ser assim que você se vê também".

Essas coisas horríveis, não eram pra mim. Eram pra Hely. E as coisas boas pela primeira vez na vida eram para mim.

Meu coração salta uma batida. Minha cabeça passa por uma tempestade de sentimentos confusos. Todas as pessoas que suspeitamos que poderiam ser o remetente da carta passam pela minha cabeça. Minhas mãos tremem e eu fico sem ação. Aquela carta que me machucou tanto tempo atrás, é o motivo de eu estar sorrindo igual uma idiota agora. Há quatro anos atrás, alguém esteve apaixonado por mim.

Um dia alguém amou Enna Wilson.

E eu não faço de ideia de quem foi.     

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