Capítulo 12 - Beijos e Bactérias

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Realmente é o Eric.

Eric com quem aconteceram aquelas coisas todas ano passado.

Minha cabeça parece que vai explodir. Faltam três cartas. Eu não sei se leio isso primeiro, ou se respondo as mensagens dele. Eu tento não lembrar do que eu fiz ano passado, mas pensar em Eric me faz automaticamente lembrar de nós dois no laboratório. Ele ia me mostrar os estudos que estava fazendo com bactérias e antibióticos, pra me ajudar a produzir um texto para o jornal da faculdade sobre a falta de investimento em pesquisas na indústria farmacêutica.

Nós conversamos um pouco, ele me explicou com funcionam as células bacterianas, e sobre como elas podem "compartilhar" o gene da imunidade a antibióticos específicos tornando a eficácia dos medicamentos menos afetiva. Ele fez uma experiência comigo, colhendo com uma espécie de colher plástica um pouco de material genético da minha boca, e o colocando para observação no microscópio com uma placa de petri. Pude ver minhas células, e pequenos pontinhos pretos com perninhas, que eram minhas bactérias bucais.

– Todo mundo tem tantas bactérias assim na boca? – eu perguntei assustada.

– Eu não tenho certeza. ~Você beijou alguém recentemente?

– Não – respondi. Fazia muito tempo desde que eu tinha beijado alguém.

– Isso geralmente aumenta o número de bactérias na boca – ele respondeu.

Foi quase cômico. Quase combinado. Ele me encarou por um momento e eu olhei pra ele de volta, e dei um passo pra trás me encostando no balcão de preparações.

– Enna – Ele começou a falar. Ele estava ficando vermelho, ajeitou os óculos e fingiu coçar a cabeça como se estivesse sem graça. Acho que ele ia dizer que eu precisava sair, e deixar ele arrumar o laboratório pra aula que eles teriam depois. Mas eu o beijei antes.

Beijei porque alguma coisa naquele instante dizia que era o correto a fazer. Porque eu queria, e porque o jeito como ele mexeu nos óculos e sorriu me deixou meio mole. Então o beijei segurando o colarinho do jaleco que ele usava. Ele ainda usava luvas, porque tinha manuseado material orgânico infeccioso (as bactérias), e seu toque na minha cintura parecia mais apertado por causa disso. Os lábios dele eram quentes e molhados, seus dentes mordiam minha boca sem causar dor ou machucar. Foi o tipo de beijo que arrepia.

Por um instante, nós paramos, sem ar. Eu o encarei.

Tinha os braços a volta de seu pescoço, e ele me levantou, me colocando em cima da bancada. Nós nos beijamos num tempo infinito. Bocas, línguas e lábios, tudo se misturando. Lembro de ficar sem ar, mas continuar ali. Eu nunca tinha beijado ninguém com tanta vontade assim. Perto daquilo, nem dava pra dizer que eu já tinha "beijado" antes. Eu não lembro nem o que aconteceu depois com exatidão. Eu acho, por causa de memórias confusas, que eu desci da bancada, e alguém chegou antes que um de nós falássemos algo.

Peguei minhas coisas com um sentimento estranho de vergonha e culpa, como se tivesse cometido algum tipo de delito. Depois disso Eric e eu não conversamos mais. Ele mandou mensagens e tentou falar comigo, mas eu não respondi nem dei abertura pra que ele falasse qualquer coisa.

Algo naquilo que eu tinha feito estava muito errado.

E o jeito como eu tinha agido também.

Eu não tentei conversar, nem escutar o que ele tinha pra dizer depois. Quando eu finalmente resolvi que precisava por essa história em ordem, ele estava namorando de novo. E ele parecia muito feliz. Eu não sabia o que aquela coisa tinha significado pra ele, mas tinha ficado muito tempo martelando na minha cabeça pra não ser nada. Eu lembro que escrevi uma cena sobre isso na minha fanfic, e todo mundo adorou.

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