O preço da raiva

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Minha luta foi antes, eu e Gabe disputávamos como se fosse a final, podia sentir a raiva dele em cada golpe. Com ele eu não podia fingir um golpe, seria um erro grave. Mesmo atacando com minhas próprias técnica ou de outros estilos ele simplesmente punha sua espada no caminho e utilizava a força para defender. Demorei a perceber que ele era um pouco lerdo e com o movimento certo podia marcar ponto. Dei dois passos à frente e fingi que iria atacar, mas ao invés de atacar direto como antes eu avançava até chegar perto do sabre dele.

Ao encostar-se à sua arma eu girei a arma dele em direção oposta a seu corpo, consegui dar três voltas em seu sabre até ele sair um pouco da mão do Gabe e neste momento deferi um golpe de longa distância e marquei o primeiro ponto. Ao perceber que eu tinha lhe encostado ele mudou de postura, como se eu havia ameaçado a sua vida. Começamos a luta novamente, ele atacou e eu desviei, mas o seu alvo não parecia ser a área demarcada para pontos, ele havia acertado o meu calcanhar direito com toda a força que tinha, tanto que me fez cair. A luta foi parada para ver os danos que minha perna havia sofrido.

O laudo oficial saiu meia hora depois, tive que tira uma chapa antes de continuar a luta, a conclusão foi que havia lesionado a região do calcanhar. Perguntaram-me:

– Mei você não precisa continuar, - disse Sr. Hop - mesmo que pare agora não direi quem é e Gabe perdeu a luta por agir de má fé, não há necessidade de continuar. Você quer continuar?

– Sr. Hop muito obrigada por me dizer isso, mas eu não estou mais aqui para proteger minha identidade, estou aqui para vencer e mostrar quem eu sou. Como posso continuar?

– Bom você pode - disse o enfermeiro - enfaixar bem, mas não sei se não vai doer durante.

– Eu aceito, a propósito quem ganhou entre Marco e Gust.

– Marco, você irá enfrentá-lo se continuar.

– Tudo bem.

Ao voltar para a área de combate vi Gust andando de um lado para o outro parecia preocupado, quando ele me viu andando correu em minha direção e me abraçou, esquecendo que teoricamente eu era homem. Ele me perguntou desesperado:

– Você está bem, que bom. Vou acabar com o Gabe na nossa luta, como ele fez esta covardia. Você vai lutar?

– Calma eu estou bem, não precisa me defender, um dia eu dou o troco e sim eu vou lutar. Antes que me pergunte eu vou falar quem eu sou e mais uma coisa, me solte um pouco que para todas as pessoas eu ainda sou um garoto.

–Tudo bem. Boa sorte e coragem, mas antes me veja acabar com Gabe.

Depois de Gust me soltar e todos nos olhar estranho eu fui para o banco, já que Gust iria lutar com o desprezível Gabe. A luta deles foi limpa, ou quase, o sabre do Gabe era menos flexível que do comum, devia ser por isso que foi possível me derrubar. Contudo Gust lhe deu uma surra, eu senti que o último golpe foi de vingança, pois Gust usou de uma força que não costumava a usar na esgrima, fazendo com que o adversário saísse machucado. Marco me observava, devia estar pensando o por que de Gust me abraçar ou em minhas fraquezas.

Finalmente fomos chamados para a final, foi anunciado:

– Marco e Mistério são os últimos a lutar! Será que saberemos quem é o participante Mistério.

Colocaram o microfone perto de minha máscara, mas como não podia falar acendi com a cabeça e fui para a pista. O juiz deu o início à batalha quando Marco já havia se preparado em seu posto, ficamos nos olhando por mais de um minuto até alguém gritar:

– Vocês vão ficar se olhando ou vão lutar?

Esse foi o real início do confronto, nossos movimentos pareciam ensaiados, estavam sincronizados, portanto nenhum ponto foi marcado no primeiro assalto. As pessoas olhavam para nós como se estivéssemos apenas os enrolando, mas na verdade eu estava levando a luta seriamente, o máximo que podia, e tinha a impressão que Marco também. Nós, felizmente ou infelizmente, tínhamos uma ótima sincronia, já que tiamos os mesmos referenciais: o professor era o mesmo; os lutadores preferidos eram iguais; estilos de lutas iguais. Ainda havia o fato que nós andávamos juntos.

No início do segundo nossas posturas continuavam rígidas, havia uma grande pressão sobre nós. Se eu perdesse, deveria mostrar minha identidade como perdedora, se eu ganhasse eu tinha que fazer o Marco pagar uma prenda e mostrar que era como vencedora. Já ele queria ver quem eu era, como o veria depois de mostrar que o Mistério seria eu. A luta continuou a mesma que a primeira, eu atacando e ele defendendo e o oposto, até Marco escorregar e eu marcar um ponto. Fiquei feliz, acho que feliz de mais, em seguida ele marcou um ponto e revezamos os pontos até chegarmos no último assalto e o último ponto, estava 4 à 4.

O terceiro assalto foi o mais difícil, o último ponto sairia dali, então ambos tomaram mais cuidado. Eu seguia com passos simples e Marco também, mas quando eu mudei de estratégia para atacar Marco ele tomou a mesma postura e atacamos juntamente. Senti o meu sabre tocar o tronco dele, mas também senti que o dele havia me tocado, o intervalo entre o movimento dele e o meu era tão pequeno que eu não consegui distinguir a ordem. O apito do marcador eletrônico tocou e nós voltamos para nossos locais de origem.

Como o marcador era eletrônico e o juiz só servia para faltas não previstas, era quase impossível errar que havia acertado primeiro. Eu e Marco olhávamos um para o outro, não desviamos o olhar um segundo sequer, a curiosidade de olhar se enfrentava com o medo de perder, e o vencedor foi o medo, não viramos o rosto para ver o vencedor e simplesmente esperamos o juiz declarar o campeão.

Eu só ouvia gritos ao longe, não conseguia interpretar o que eles diziam, pareciam clamar um nome, mas eu não distinguia se era Marco ou Mistério. Senti que estava sendo carregada para o podium, eu ainda não havia entendido quem tinha ganhado, eu estava em estado de choque e Marco demonstrava o mesmo, fomos levados ao podium.

Vi Gust a minha esquerda, quando ele relou em meu braço e sussurro:

– Parabéns, foi uma luta linda.

Antes de dizer "parabéns por quê", olhei finalmente para o placar e lá estava 5 à 4 para o meu lado. Com isso retomei meus sentidos, eu estava no meio do podium, no primeiro lugar e escutava Marco me dizendo:

– Parabéns, não foi desta vez que descobri quem você é. A propósito, qual será a prenda que vai me impor?

– Apenas - tentei mudar ao máximo minha voz - não fique bravo comigo.

– Bravo, por quê bravo?

Antes de responder, os alunos que estavam cobrindo o torneio vieram falar comigo:

– Mistério, qual é a sua identidade?

Caçadora de AsasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora