Os dias seguintes transcorreram em ritmo tenso, apesar da monotonia da viagem. Rubi era vigiada constantemente pelos invasores, que se revezavam a cada 6 horas. Mesmo quando a nave se mantinha em piloto automático, sempre ficava um dos intrusos postado na porta do alojamento com um megablaster nas mãos, enquanto ela dormia. O maior deles, de cabelos platinados e olhos cinzentos, a encarava com olhos maliciosos cheios de maldade.
O cargueiro Montenegro, apesar de suas dimensões avantajadas para uma nave espacial, era projetada para o carregamento de mercadorias e não de pessoas. Antes do sequestro, havia apenas cinco tripulantes na ponte de comando, oito engenheiros e auxiliares na engenharia, além de outros oito oficiais novatos de segurança. Dos 21 tripulantes embarcados, houve 16 baixas. Apenas Rubi, Botsume e mais três engenheiros auxiliares haviam sobrevivido ao ataque.
Cinco tripulantes contra quatro invasores. Não seria um páreo tão difícil não fosse a gritante diferença no calibre das armas e o fato dos engenheiros auxiliares serem subordinados a Botsume.
"Aquele filho da puta está envolvido nisso!" Concluiu Rubi. Enquanto estivessem no espaço, eles precisariam dela viva para conduzir o velho cargueiro. Quando chegassem em Marte, o jogo poderia mudar e ela decidiu esperar por um momento mais oportuno para agir.
Quando faltavam três dias para chegarem ao destino, Botsume a acordou, trazendo provisões entomófilas liofilizadas para que se alimentasse antes de retornar ao sistema de navegação. Rubi o fitou com olhos de menosprezo, com repulsa pelo colega com quem já havia dividido os últimos dois anos de voo interplanetário.
- Não me olhe com essa cara, Rubi! Você não entende...
A navegadora aproveitou o raro momento em que estavam a sós no alojamento e falou, em tom baixo:
- Não entendo o quê? Que você é um filho da puta de um pirata traidor?
- Não sou um traidor! - ele respondeu um tanto alto, depois baixando a voz enquanto olhava assustado para a porta. - Você é quem tem trabalhado esses anos todos como uma alienada, carregando provisões e quinquilharias pra lá e pra cá, enchendo de riquezas o rabo gordo da Corporação Landor!
- Sim, e você pensa que matando nosso comandante e nossos colegas de tripulação irá salvar o mundo dos políticos e burocratas?
- Você não entende! É algo maior que isso!
Um barulho de passos de botas magnéticas soou pelo corredor, aproximando-se do alojamento.
- Você é um idiota pau mandado e psicopata! - falou Rubi.
Botsume não respondeu, e endureceu o olhar quando um dos invasores atravessou a porta e ordenou:
- Vá para a engenharia, precisamos acionar o sistema de bloqueio de varredura!
- Sim, senhor! - respondeu, olhando para Rubi e baixando os olhos.
Quando Botsume saiu, o corpulento homem nos trajes espaciais a pegou com força pelo braço, escoltando-a até a sala de comando. Aquele deveria ser o atirador que matou o oficial de comunicações da ponte.
Ao abrir a porta automática, ainda conseguiu ouvir o diálogo que transcorria entre dois invasores que olhavam a imagem da superfície de Marte no painel espaçográfico:
- Assim que Botsume acionar a emissão de ondas de bloqueio, estaremos invisíveis aos radares da Genesis. Podemos fazer a volta a uma distância segura até a face oposta para descarregar a mercadoria nos túneis...
O homem de estatura menor parou de falar quando percebeu a presença da navegadora na ponte. Com um sorriso aparentemente amigável, ele a encarou de frente e disse:
- Imagino que você está achando que somos piratas roubando a comida dos colonos de Marte!
Rubi manteve o olhar firme, encarando-o, mas não respondeu.
- Seu amigo Botsume nos falou muito bem de você! Que é inteligente, perspicaz, e que tem o código de acesso ao espaçoporto de Genesis. - ele mudou sua expressão para um semblante mais sério. - Escute, com muita atenção: não somos seus inimigos, mas se não colaborar, terá consequências, pois não podemos perder esse carregamento! É uma questão de vida ou morte!
- Sim, para as pessoas que morrerão de fome sem as provisões! - Rubi decidiu falar.
O homem corpulento de olhos cinzentos que a escoltara encarou-a mais uma vez, com um riso discreto no canto da boca. Com voz irônica, ele a questionou:
- Quem você pensa que está morrendo de fome? Os privilegiados escolhidos a dedo da colônia Genesis?
Deu uma gargalhada forçada e parou. Assumindo uma postura austera, ele continuou:
- Depois de 150 anos de colonização de Marte, você ainda acredita que os únicos habitantes do planeta são os 2000 colonos de Genesis?
Ela ficou surpresa, pois era isso mesmo no que acreditou por todos esses anos.
- Pois vou te contar um segredo! Um segredo obscuro, escondido pela Corporação Landor há três gerações!
- E que segredo tão obscuro é esse que faz pessoas que se dizem não serem inimigas matarem inocentes para roubarem sua mercadoria vital?
Ele fez menção de se tornar mais agressivo. Porém, o homem de rosto amigável fez sinal com a mão para que parasse e dirigiu seu olhar sério para Rubi, levando a conversa para um tom mais ameno:
- A Colônia Genesis é o jardim do Éden do planeta Marte! Lá, só há lugar aos escolhidos dos Landors. Existe uma realidade oculta, que foi escondida por muitos anos e que está prestes a se revelar: há uma população escondida em torno de 800 pessoas vivendo clandestinamente nos túneis subterrâneos há cerca de 30km do perímetro urbano. Pessoas que sonharam com uma vida melhor e deram tudo o que tinham para viajar pelo espaço e conseguir um trabalho digno no planeta vermelho! Mas os Landors têm interesses e negócios que não incluem a aceitação de refugiados terrestres e, sem o menor escrúpulo, ao invés de mandá-los de volta ao planeta natal, baniu-os da colônia para morrerem sem recursos no deserto vermelho!
Rubi arregalou os olhos e sentiu a garganta fechar. A vida inteira acreditou que Genesis fosse uma colônia de pesquisa próspera e que seu trabalho era importante para a sobrevivência dos colonos. Ela nunca imaginou que nas profundezas do planeta vermelho houvessem humanos morrendo de fome.
- Então, você está querendo dizer que estão roubando comida para alimentar famílias refugiadas da Terra?
O homem à sua frente afirmou com a cabeça e estendeu a mão para Rubi, gentilmente:
- Sou Cassius Lockhead. Meu avô foi um dos primeiros homens banidos para morrer no deserto vermelho, mas resistiu com unhas e dentes, assim como nós.
- E quem são vocês?
- Somos os exilados da colônia Genesis e vamos tomar o poder do planeta vermelho custe o que custar!
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O que Rubi vai fazer munida desta revelação bombástica sobre os exilados de Genesis?
O que os invasores pretendem ao chegar na superfície do planeta vermelho?
De uma vida monótona e servil, Rubi se meteu numa situação inesperada e perigosa, onde aquele que parecia ser seu amigo pode se tornar seu inimigo, e aqueles a quem teme se aproximam com intenções de incluí-la em sua trama obscura.
Acompanhe essa nova aventura Sci Fi e desvende os próximos capítulos de Genesis! Comente o seu feedback, é muito importante para a evolução do processo de criação da história. E não se esqueça de votar pra dar aquela força! ;-)
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GENESIS
Ciencia FicciónNo século XXIII, os humanos já haviam colonizado a Lua e o planeta Marte. Porém, as consequências da IV Grande Guerra haviam mudado a Ordem Interplanetária, transferindo o poder dos governos falidos para as grandes corporações privadas. Em contraste...
