Inchada

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Não tenho mais sonhos em mim. Meus sonhos se esvaíram, se esvaziaram, se encheram e voaram por aí. Se perturbaram por morar em um coração inconstante, deprimido, indeciso, dúbio, impulsivo. Se cansaram das palavras torpes, maldizentes, desprezíveis, improváveis. Se enrolaram ao correr felizes, derrubaram uns aos outros e tropeçaram nos seus próprios pés. Já não sobrou nenhum, e a fé que sempre os faz voltar me abandonou. Já não respiro fundo porque o peito dói, já não me ouço falando porque não me escuto, já não digo nada pois não sei dizer, já não continuo pois só sei cair, e nem paraliso por medo de ficar aqui, já não sou mais eu, já nem sei quem sou, já me abalei e me balancei e me derrubei querendo morrer. Já sai do poço mas não sei de qual, já me vi pior mas mesmo assim estou mal, já não quero ouvir as palavras fofas nem nenhum perdão, nem nenhum te amo. Já não quero amor, não quero desculpas, não quero viver, só quero castigo, me fazer maldita, desaparecer. Só quero o sofrer constante, é o que eu mereço com o andar errante. Só quero mais dores pra sanar a minha, minha dor só minha de ferir meu pai. Meu pai que acredita, meu pai que confia e que nunca mais vai querer me ver. Já virou o rosto, morreu de desgosto, já provou o gosto da decepção. Essa aí sou eu, já tirei meus braços, e as minhas pernas, arranquei a língua e ainda erro. Já tentei mudar, tentei me espelhar, e me castigar com tudo que pude. Mesmo assim não deu, nada aconteceu, só a minha vida que continua mal. Eu sempre quis viver de forma a crescer não me machucar e só me amar, nunca consegui, nem estando aqui nem estando lá. Sou pequena coisa, um pequeno erro, maldito desespero que me fez nascer. Se eu pudesse um dia, voltaria a vida, antes de tudo isso acontecer. Eu estava bem e vivia bem, mas me estragaram, me estrangularam e me abandonaram, hoje sou um erro, já cresci errada e de tanta torta já estou inchada.

Silêncio que se lêHistórias para pegar e não largar. Descubra agora