Recomeço

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Eles gritavam, meus ouvidos estavam tão cansados quanto a minha mente. Diziam aquilo que eu era, das mais variadas formas chamavam-me prostituta. Davam-me meio a chutes e tapas, puxavam meu cabelo com violência, alguns homens aproveitavam pra passar a mão no meu corpo e outros apertavam meu pescoço. Eram uma multidão, a ponto de eu sequer distinguir as mãos, mas já não mais importava, eu estava no chão, minhas mãos estavam feridas e o sangue se misturava à areia. Eu não respondia, não gritava pela minha vida, eu sabia o que era, que a minha prostituição apagou a minha vida, meu corpo doía e sentia constante falta de ar. De certa forma, eu estava do lado deles, sabia que merecia a condenação. Eles não me olhavam como gente, mas como adúltera. O peso de todos os erros pesava sobre mim e eu não podia reagir, não queria implorar pela minha vida porque o melhor que poderia me acontecer é dar fim à ela, dar fim ao peso. Ainda que eu sobrevivesse carregaria a morte em mim e as dores seriam eternas, o peso seria incanculável.

Eles perceberam que eu estava imóvel, o choro salgado ardia as escoriações do meu rosto, o nariz escorria e já não saia som da minha boca aberta em desespero, eu escolhi como seria o meu fim. Quando perceberam que eu já não mais sentia as agressões, pegaram pedras, e tudo que elas causariam ao serem atiradas contra mim seriam um alívio perto da dor da vergonha que eu sentia na areia em meio a multidão. A vergonha não me permitia mostrar o rosto, o meu cabelo me cobria e grudava no meu rosto pelo suor, através dos fios eu via a quantidade de pedras a ser recolhida. Um dos homens da multidão me puxou pelo braço e me levou a outra pessoa, com violência me colocou diante de um homem, ele era magro a sua pele era cor de barro e as roupas eram levemente sujas, não olhei para o seu rosto. Perguntaram a ele o que fazer comigo, eu mesma não entendi, se só existia uma opção que cumpriria a lei, quem seria esse homem à ir contra uma multidão? Ele não me conhecia, a não ser como adúltera.

Ele parecia calmo, respirou fundo e escreveu algo na areia que tinha um pouco do meu sangue. Ele deixou o povo em silêncio e ninguém mais aguentava esperar, eu estava ansiosa pela morte, a cada minuto que passava o peso de ser me sufocava um pouco mais, meus pulmões pareciam menores e eu me esforçava para respirar, usando as narinas e boca. Insistiam em gritar com aquele homem, acho que não gostavam muito dele, e não entendia o motivo de lhe pedirem a opinião. Ele então parou de escrever na areia, se levantou e disse: Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.

E então voltou a escrever.

Eu não podia acreditar no que ele havia dito, por um momento pensei que a multidão se rebelaria contra ele também, quem era esse homem para me defender? Ainda não havia conseguido olhar no rosto dele. Eu olhava fixamente pra areia e o cabelo que cobria o meu rosto, quando escutei o barulho das pedras, elas estavam sendo jogadas ao chão, outras estavam sendo lançadas longe, como quem tem vergonha do passado, o peso incanculável que havia em mim foi-se distribuindo pela multidão, encargos de erro e semblantes de vergonha e frustração podia ser visto no rosto de todos. O peso estava deixando o meu corpo, e eu já conseguia respirar melhor vendo que eles estavam indo embora. Os mestres e os mais velhos eram os primeiros a dar as costas. Até a multidão inteira se dispersou. Me encontrei em estado de choque, meu corpo tremia, e levantei o tronco e a cabeça, para ver o homem que eu não conhecia. Fiquei pensando se ele tinha alguma intenção pior que a da multidão fazendo-os dispersar, então tive medo, mas olhei para ele e ele tinha rosto de paz. A minha mente estava em confusão, o que seria agora da vida de uma adúltera? Pensava isso enquanto ele olhou para mim e chamou-me, não de adúltera, mas de mulher.

Não me via mais como mulher, não me via mais como alguém, meu erro havia me feito adúltera. Mas ele me perguntou onde estavam os que meus acusadores, se ninguém havia me condenado após as palavras dele. Eu gaguejei e soluçei ao responder: "Ninguém". Então ele me disse: "Nem eu também te condeno". Nesse momento eu só conseguia chorar, o ar parecia ter enchido novamente os meus pulmões e o sal da areia não ardeu mais as minhas feridas. Só com palavras um homem afastou uma multidão, não me dando o que eu merecia, o que manda a lei. Fui me levantando com dificuldade, o meu corpo tremia por inteiro, tentando entender o que havia acabado de acontecer. Eu não pensei em uma vida pós adultério, pós acusação, para mim seria aquele o fim e só, me perguntei o que seria, o que faria, senti medo e sem perspectiva, tudo isso numa fração de segundos, quando mostrando-me o verdadeiro significado de recomeço ele me disse: "vá, e não peques mais".

Releitura fictícia da história bíblica da mulher adúltera em João 8:1-11.

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