23 de Junho de 2019.
o destino é infindável,
disse-lhe, absorto e afável.
olhamo-nos com olhos desesperados
e gargalhamos do inevitável.
rimos por longos segundos,
era inexorável! inexorável!
inadimissível! e rimos, rimos.
sorríamos para sempre.
as mãos firmes - não mais tremem.
firmes e frias.
arroxeadas, esverdeadas.
brancas e frias.
lábios sem cor - talvez um pouco azuis.
me mostravam um sorriso,
os dentes amarelados e pequenos
quase saíam da boca.
faziam-lhe covinhas.
buscávamos o espelho.
ah! que piada!
que graça! e seria?
era possível?
não nos seguramos,
ficamos sem ar de rir.
era necessário, necessário.
botamo-nos a sorrir.
quem são lágrimas?
já não fazemo-nas,
não há sentido em tê-las, não.
pois vós sois a eternidade.
por isso vos passo com solenidade,
quem melhor que a risada
para a prosperidade?
dão-nos tiros, esguiamo-nos,
prostramo-nos, obrigada!
obrigada! agradecemos a tentativa!
gostaria que tivesse tido sucesso.
e como uma velha à deriva,
de soslaio, como chacoalho
de cascavél, como apertar
de sucuri,
aproximamos, quietas.
por que sorri?
por que sorri?
botaram nos uma faca no estômago,
gargalhamos.
cômico, engraçadíssimo.
nada melhor que o riso.
xinguem! xinguem!
por favor, agradecemos a tentativa.
que piada!
como atiram em mortos?
que há dar-lhes pedrada?
fomos linchados e esquartejados,
que há em picadinho de carne morta
se não hão de comer e saciar a fome?
que há de dizer meu nome, se não para maldizê-lo?
só se elogiam mortos em Finados.
lá por Novembro.
estamos em Junho, que há?
que nos digam como oblíquas,
de olhos falsos, longíquas
depravadas. que nos desejem
o que já somos: sorriremos.
não tirar-se-á cor de nossas mãos:
elas já foram decepadas.
não há falta de amor
quando o coração já não bate.
que piada!
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Martírio
PuisiBoas vindas ao Martírio, uma viagem adentro das piores emoções humanas. Atente-se ao pôr-do-sol das aparências - aqui não fingimos prudência ou moralidade -, quando a noite cai, a encaramos e a enfrentamos sem medo. Quando as luzes se apagam, a verd...
