Redoma de Vidro

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Cirilla

 Já havíamos cavalgado por horas. Meu corpo quase pendia para o lado, ameaçando escorregar pelo lombo de Plotka a cada gracejo do animal, e toda vez que a égua trotava eu era arremessada de encontro as costas do lobo branco. Tive o ímpeto de fechar os olhos e permitir que a velocidade me tragasse, contudo, meus instintos de sobrevivência ativaram meus reflexos restantes e me obrigaram a segurar com mais firmeza, envolvendo Geralt com meus braços. 

 Os únicos sons que eu ouvia era o farfalhar das folhas conforme o cavalo percorria a densa floresta e os pássaros gralhando nas copas das árvores, batendo as asas ao sopro do vento que chiava por entre os troncos e galhos retorcidos. Até mesmo a minha respiração era abafada pelas batidas irregulares do meu coração. 

 Eu havia tido pouco tempo para refletir acerca das revelações do riviano. Meu pai estava morto. A culpa era da minha avó. Eu podia manipular o caos e descobri aquilo apenas com dezoito anos. Toda a verdade me atingiu com um baque, fazendo-me arfar. Mais uma vez agarrei-me com ainda mais força em Geralt, enfrentando a batalha que era permanecer junto a ele sobre o animal. Uma semana havia se passado e eu ainda não tinha notícias dos meus avós, e a única esperança a qual eu podia me agarrar era que ele me procurariam quando tudo estivesse bem novamente. 

 Mas quando aquilo aconteceria? 

 Ao meu ver, meu inferno terminaria apenas com a morte do Imperador de Nifgaard, ou então com a minha morte. Do contrário, os soldados não parariam de me perseguir. E eu preferiria estar morta a ser uma arma de domínio sobre o Continente.

 Mesmo após o cair da noite, Geralt não reduziu a velocidade que cavalgávamos, fazendo Plotka correr pelos caminhos estreitos e sinuosos da mata. Conforme a lua lançava sua luz pálida através dos galhos, eu tinha a sensação de estarmos sendo perseguidos por criaturas fantasmagóricas, sempre a espreita nas sombras. Fechei os olhos e repousei a cabeça nas costas do bruxo, encolhendo-me atrás de seu corpo como uma criança que abraçava um travesseiro, com medo da tempestade. Eu não queria que fosse verdade, contudo, eu me sentia fraca e acima de tudo indefesa, e uma das coisas que eu mais odiava era ser um fardo para as outras pessoas. 

 Mesmo minha avó sendo uma rainha forte e a frente de seu tempo, participando de batalhas e estando na linha de frente quando se tratava de estratégias e defesas referentes ao reino de Cintra, ela havia me criado em uma espécie de redoma de vidro. A princesa perfeita e intocada pelas garras do mundo exterior. Um mundo que, segundo ela, era repleto de criaturas mostruosas e seres humanos piores que demônios. O pouco que eu conhecia sobre ele na prática vinha através das vezes em que eu me esgueirava para fora dos muros do castelo e encarava a realidade sob um chapéu onde eu escondia meus fios claros, passando-me por um garoto de rua. 

 Após saber o motivo por trás do ataque, comecei a desconfiar que a fonte das inseguranças de Calanthe eram os acontecimentos de dezoito anos atrás, quando o reino rival jurou vingança pela morte de seu cavaleiro. Talvez ela achasse que mantendo-me trancada em uma torre eu permaneceria a salvo dos horrores arquitetados por Nilfgaard. Mas pelo jeito ela estava errada, pois ali estava eu, exausta e desidratada, prestes as desmaiar. 

 Eu precisava parar, descer da égua e repousar por horas mesmo que sobre o chão irregular da floresta, contudo, eu não queria demonstrar fraqueza. Queria que Geralt soubesse que eu poderia superar os limites do meu corpo frágil e resistir em situações de risco. Desejava que ele visse que, mesmo que eu não fosse fisicamente forte, eu era determinada e corajosa. E foi com aqueles pensamentos que senti meus músculos perdendo força, como se de uma hora para outra meu cérebro fosse incapaz de controlá-los. Pouco a pouco fui soltado-me do abraço que eu dava no riviano e escorregando o rosto por suas costas. Minha mente anuviava-se, embaralhando meus pensamentos enquanto minha visão era tomada por uma névoa que dançava bem diante dos meus olhos. 

Lei do Destino [Reta Final]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora