Capítulo 36

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Minha cabeça palpitava como se alguém tivesse enfiado fogos de artifício em meu cérebro e os estivesse tirando. Essa foi a primeira coisa que fiquei ciente. A segunda era a queimação em meu peito, tão intensa que enviava pulsações de dor para o resto do meu corpo. A terceira foi que minhas mãos e pés estavam amarrados a alguma coisa alta e dura atrás de mim. A quarta foi a mais preocupante de todas: eu estava molhada e não era de água. O forte cheiro de gasolina encheu minhas narinas sem eu precisar aspirar o ar.

— Queime-a. Queime-a agora, antes que ela acorde! – Uma voz familiar encorajava. Sarah. Eu devia tê-la matado quando tive a chance. Era sempre bom aprender com os erros.

Abri os olhos. Griffin estava há alguns metros de distância no meio de uma clareira triangular entre os altos pés de milho. Sarah estava ao lado, mas fora, mas Lisa e Francine completavam os outros dois cantos do triângulo. Elas estavam acorrentadas como eu a postes altos de metal cravados no chão, mordaças em suas bocas, olhos arregalados de horror quando olharam para mim. Apesar de que, diferente de mim, nenhuma delas tinha uma grande faca de prata enfiada em seu peito. A lâmina parecia emitir uma fonte constante de ácido, escaldando minhas terminações nervosas e drenando minha força. Mas apesar de estar perto do centro do meu peito, ela não estava em meu coração. Ou Griffin tinha errado deliberadamente porque ele não queria arriscar em me dar uma morte fácil ou sua pontaria não era tão boa quanto ele pretendia.

Griffin puxou um grande livro amarrado com couro das dobras de seu novo manto preto com capuz. Acho que ele cansou daquela velha túnica enlameada à qual era preso a ela quando estava na forma de vapor. Seu olhar parecia brilhar com um triunfo malicioso quando ele abriu o livro e começou a ler em voz alta.

— Eu, Tyrone William Griffin, Juiz nomeado no interesse da fé, declaro e pronuncio a sentença de que vocês que estão aqui são hereges impenitentes e assim como tais devem ser entregues a justiça. – Ele entoou e apesar da versão original do Hammer of Witches em latim, ele fez questão de falar em Inglês para que nós entendêssemos.

Eu não tinha uma mordaça, provavelmente porque Griffin sabia que eu não ia me incomodar em gritar por socorro, mas isso não significava que eu ia ficar em silêncio.

— Eu li isso, sabe. Sua prosa era chata e repetitiva e seu uso exagerado de letras maiúsculas para ênfases dramáticas era no máximo juvenil. Ah inferno, vou dizer de uma vez – é uma porcaria. Não é de se imaginar que você teve que falsificar seu endosso.

Agora seu olhar brilhava de ultraje. Ele fechou o livro com um estrondo, se aproximando de mim. Escritores eram tão sensíveis quando se tratava de crítica.

— Deseja morrer agora, Hexe? – Ele sibilou para mim. Então se inclinou pegando algo fora do meu campo de visão. Quando ele se levantou, tinha uma lanterna à óleo em sua mão, a chama laranja dourada acariciando o vidro que a rodeava como se implorasse para ser libertada.

Olhei sobre seu ombro, para Sarah, que estava praticamente vibrando com excitação com a possibilidade de ele tacar fogo em mim.

— Ela pode não saber qual é sua rotina, mas eu sei. – Eu disse suavemente. — Então baixe a lanterna. Você não vai me queimar ainda e nós dois sabemos disso.

— O que ela está dizendo? – Sarah quis saber, andando apressadamente até lá.

Suas sobrancelhas brancas se uniram e eu permiti que um pequeno sorriso brincasse em meus lábios.

— Terrivelmente mandona com você, não é? Mais uma vez faz sentindo. Ela veste as calças e você é quem usa vestido.

Ele deu um soco, mas não me atingiu. Ele atingiu Sarah bem quando ela se inclinava para se firmar em Griffin. Ela caiu, vermelho jorrando de seu nariz. Agora que ela tinha cumprido sua utilidade, ele não ia mais esconder suas intenções em relação a ela.

Night Huntress Vol #6Onde histórias criam vida. Descubra agora