Esse momento que não se pode falar nada é o que vem a vontade de tossir, espirrar, fazer pipi, coçar qualquer coisa e cantar Chorando Se Foi. Praticamente os quase 40 alunos, eu incluída, abriram o envelope juntos. Ah, eu já tava esperando encontrar uma pergunta cabeluda sobre política e economia ou sobre o que fala o artigo 34º da Constituição Federal. Talvez alguma instrução do tipo 'arranque o braço de um japonês, tempere com canela e deixe em banho maria e leve até a sala de anatomia do laboratório do Centro de Ciências Biológicas'. Onde eu iria arrumar um japonês? Haha, brincadeira. Eu tava nervosa.
Abri o envelope com cuidado e o papel que havia dentro continha o número 25 em fonte Arial tamanho 11 no máximo. Isso é uma senha? Meu número na fila do pão? Enfim, percebi pelo menos que não era a única que havia recebido algo do tipo e que tampouco era a única nervosa. Tinha gente olhando para os lados pedindo misericórdia para os veteranos sem usar as palavras. Ta parecendo jogos mortais.
"Mas a minha folha não tem nada escrito!" Uma menina se revoltou. Na mesma hora um dos veteranos chegou por trás dela, disse pra ela pegar suas coisas, o envelope com o papel e para segui-lo até a porta. Todo mundo ficou olhando mais nervoso ainda.
Aos poucos as pessoas iam tentando resolver o mistério de formas bem loucas. Um deles apontou o papel pra luz, mas acho que não tinha mais nada. Um cara escreveu algo e também tiraram ele da sala e aí eu tremi na base. Tava quase pegando meu lápis pra fazer uma redação ou alguma coisa relacionada ao número, mas entendi que não poderia estragar o papel de jeito nenhum. Quando ele saiu da sala, pelo barulho, deu pra sentir que fizeram uma maionese na cabeça do rapaz. Depois que o povo ouviu, sentiram que ficar presos na sala com veteranos torturadores de uma figa até as 14 horas e sair agora daria na mesma, já que eles nos sujariam quebrando as regras ou não. Parecia micareta, todo mundo se levantou fazendo a 'ola' e começaram a conversar indo em direção à porta como se fossem buscar Dalila ligeiro, sendo acompanhados por três dos veteranos, se entregando por conta própria. Sobraram uns dez alunos na sala. E eu? Ah, eu tava mais muda do que Anastacia Steele amordaçada pelo Christian Cinza só que sem prazer.
Olhei para os lados e sentia que logo todo mundo sairia dali, principalmente quando o tédio gritasse e a síndrome do celular vibrador começasse a pegar como aquele episódio do choque do Chaves. Eu fui ficando. Eles iam saindo e eu ia ficando. Até ficar só eu, uma outra menina e a tal veterana bonita cuidando.
Já tinham se passado quase 1 hora e eu confesso que achei que iria durar muito menos. A veterana bonita me olhava e eu já achava que tinha culpa no cartório. Peguei com cuidado o papel e não tinha sequer marcas visíveis de dedo. Juro que por mais que eu esteja com a música da Mc Ludmilla na cabeça eu não cantei 'Hoje, é hoje...' e ela continuava me olhando. Mas ela não me olha de forma ameaçadora ou algo do tipo, nem como se ela estivesse achando que eu seria a próxima a fazer algo. Ela tem um olhar sereno sobre mim, tranquilo. E não sei porque, mas eu também não conseguia tirar meus olhos dela.
"Vai nos deixar aqui até as 14 horas mesmo?" A menina que permanecia comigo na sala falou, tirando-nos do transe. A veterana foi até ela para retirá-la da sala, mas a outra se antecipou.
"Não precisa. Pode continuar...".
Continuar o que? Será que eu dormi e sonhei? Fazia tempo que eu não acordava assim cedo, tá certo, mas eu não estava com sono. Por um momento eu pensei em seguir a menina, mas acabei permanecendo onde eu estava, muito mais assustada do que antes. Será que é nesse momento que o Luciano Huck aparece me dando uma chance no Agora ou Nunca? Ou de repente ele me leva pra conhecer a Valesca Popozuda. Só não queria que fosse o Faustão porque ele não me deixaria falar. Ajuda Luciano!!!
"Você não vai querer desistir, não é mesmo?" Ela me perguntou. Fiquei quieta. Não cheguei até aqui pra cair na primeira oportunidade. Cerrei meus lábios com força e uma risadinha escapou de sua boca.
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Serendipity
Novela Juvenil"A lei é a razão livre da paixão", já diria Aristóteles. Não faço ideia do que isso interfere na minha vida, mas vi em Legalmente Loira e achei melhor guardar pra se caso um dia eu venha a precisar. Fiquei pensando muito tempo em um resumo da minha...
