O que se faz quando você está esperando uma pessoa no restaurante? Permanece sentado como a Cláudia da Xuxa ou levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima? Eu acho que meu sorriso estava indo longe demais. Por mais tímida que eu seja (embora não pareça, eu sei), não consegui nem disfarçar e fingir que não a vi, porque literalmente fiquei babando por ela. Ora, qualquer um com olhos babaria por ela. Eu havia avisado ao pessoal lá da entrada que estava esperando por uma pessoa com dois olhos verdes como faróis, só que lindos, e bom, eles apontaram pra minha mesa, bem na hora que eu olhei para a porta, impaciente, esperando por ela. Ninguém mandou chegar meia hora antes, eu sei, mas meu sistema nervoso não sabe.
"Oi Camila! Não me atrasei, né?" Ela disse sorrindo enquanto eu levantava para cumprimentá-la. Eu resolvi levantar porque eu acho que é o que Gloria Calil mandaria fazer. Meus dedos tocaram seus cabelos e logo me veio na cabeça a ideia de não lavar a mão por uma semana, como quando vamos ao show de um cantor que a gente gosta e ele pega na nossa mão. Ou como se ele fosse Midas, aquele cara da mitologia que tudo que toca vira ouro.
"Não, não, eu acabei chegando mais cedo do que o previsto. Hoje estamos fora do consultório, então posso dizer que cheguei mais cedo do que o previsto por uma simples casualidade da vida, que você não deve classificar como ansiedade" eu ri da minha própria timidez. Parece que não, mas é... e essa sou eu nervosa, falando sem parar e besteira, claro. Ninguém reparou que eu contei pra ela que estava ansiosa né? Mas poxa, gente, a vida me deu muita coisa pra segurar. Olha, já tenho que segurar o Tchan, as pontas, o forninho pra não cair e ainda ter que segurar a barra que é gostar da Lauren, aí me complica.
"Eu nem cheguei a pensar nisso..." ela riu.
"Sei, conheço vocês..."
"Mmm... Como conhece?"
"Conheço no sentido de que quando somos muito condicionados a fazer determinada coisa, é difícil ver o mundo de forma diferente. Treinam vocês para captar os sinais das pessoas e assim dar o melhor diagnóstico para ela para o tratamento. Então quando você está numa conversa, ainda que seja informal, acredito que seja difícil se desvincular dessa prática... não? Tô falando besteira?"
"O pior é que não está falando besteira... É difícil parar de analisar as situações, as pessoas, os gestos. E não é algo que eu queira fazer o tempo todo, sabe? Acaba sendo involuntário. Talvez isso, algum dia, se torne tão comum que me pareça imperceptível. Mas por agora tá sendo inevitável..."
"Falando nisso, Lauren, er... Você já analisou alguma cadeia hereditária?" ela riu.
"Quando eu soube que o motivo das cadeias hereditárias acontecerem é porque o que o de cima sobe o de baixo desce, eu nem quis analisar"
"Ficou com medo de achar tudo bom, xibom, xi bom bom bom..." eu disse fazendo uma cara sugestiva e ela gargalhou um pouco sem graça. Um garçom se aproximou da gente pra fazermos o pedido. Confesso que eu fiquei apreensiva. A gente conhece verdadeiramente as pessoas quando elas vão à uma cantina, sabe porque? Porque eu ainda conheço gente que vai pra essas amostras grátis do paraíso para comer salada. É como ir numa confeitaria pra comprar sanduíche natural. Por que uma pessoa iria pra uma pizzaria comer salada? É tipo comer chocolate do lado de alguém que tem intolerância severa à lactose. Não se faz.
Pedimos as bebidas e fomos olhar as pizzas. Eu juro que não sou chata pra comer, mas eu espero do fundo de minha alma que ela não peça a pizza de tomate seco. Vocês já viram o quanto é ruim? Não quero que vocês se virem contra o tomate seco, nada contra ele, mas também nada a favor. Só é muito ruim.
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Serendipity
Jugendliteratur"A lei é a razão livre da paixão", já diria Aristóteles. Não faço ideia do que isso interfere na minha vida, mas vi em Legalmente Loira e achei melhor guardar pra se caso um dia eu venha a precisar. Fiquei pensando muito tempo em um resumo da minha...
