27

3.3K 179 3
                                        

BIRO: 🤑

O morro inteiro tava comentando, Pereira tinha voltado, Neguinho na boca só dizia que era milagre, uns falavam que foi troca de advogado, outros que ele mexeu os pauzinhos certos lá dentro, Eu já sabia de tudo, claro, Se alguém sabia de alguma coisa ali, era eu.

Mas ver ele ali, na minha frente, era outra fita.

Quando subi na laje, vi Pereira encostado na grade, olhando a favela de cima, Os olhos dele percorriam cada barraco, cada viela, como quem olha algo que pensou que nunca mais ia ver.

PH tava do lado, trocando ideia com uns moleque, mas os olhos tavam sempre nele, como se ainda não acreditasse que o cara tava de volta.

Biro: Rapá... quem diria, Quem é vivo sempre aparece, hein? — soltei, deixando o sorriso crescer no rosto.

Pereira virou o rosto devagar, e por um segundo, aquele sorriso debochado que eu conhecia tão bem apareceu, Mas ainda tinha algo diferente, O peso dos dias presos, talvez.

Pereira: Tá achando o quê, Biro? Que eu ia deixar cês aqui pra sempre? — ele riu, mas era aquele riso preso, meio amargo.

Cheguei perto, estendi a mão, e ele me puxou pra um abraço firme, aquele tapinha nas costas que é mais forte do que qualquer palavra.

Biro: Achei que tu não ia aguentar o tranco lá dentro, meu parceiro, Mas cê é duro na queda, né? — brinquei.

Ele riu baixo, mas os olhos mostravam que o tranco tinha sido pesado mesmo, PH chegou junto, largando os moleque e vindo pro nosso lado.

PH: Caraca, Pereira... ver tu aqui de novo é doideira, mano. — PH falou, o sorriso aberto, mas o olhar ainda meio desconfiado, como se tivesse medo de acordar de um sonho.

Pereira deu aquele sorriso torto, o mesmo que ele dava antes de sair pras corridas, antes de fechar os corres na boca.

Pereira: Tô aqui, pivete, Inteiro, pronto pra qualquer fita.

Biro: Inteiro é modo de dizer, né? — brinquei. — Tem que comer muito feijão pra recuperar esses quilos perdidos aí, parceiro.

Ele riu, mas eu vi o olhar pesar, Aquela risada que corta e costura ao mesmo tempo.

Pereira: Lá dentro é osso, Biro, É osso. — Ele passou a mão no rosto, respirando fundo. — Mas é aquilo, né? Se não for na marra, não é nóis.

Ficamos em silêncio um instante, cada um no seu canto de pensamento, PH deu uma risada meio nervosa, tentando quebrar o clima.

PH: E aí, Pereira, já trocou ideia com a Hellena? — provocou já sabendo, o riso safado de sempre.

Pereira deu uma olhada pra ele, uma daquelas que só ele sabe dar.

Pereira: Cês acham que eu ia voltar e não ia procurar minha mulher, doido? — O tom era de brincadeira, mas a verdade tava ali, Ele continuou. — Tá doida, mano, Quase me matou de tanto choro, passei o dia com ela ontem, Era foda ela acordando e olhando pra ver se era real.

Biro: Foda mesmo, E tu? Quase matou ela também, né? — cutuquei. — A mina tava um caco, achou que tu não voltava nunca mais.

Pereira respirou fundo, o olhar perdido de novo, Eu sabia que ele pensava nisso, A culpa, o peso, o tempo perdido, O medo de não conseguir voltar e deixar ela aqui.

Pereira: Sei, Biro, Sei bem o que fiz ela passar... — ele disse, baixo. — Mas tô aqui agora, né? Vou fazer de tudo pra não largar mais.

O silêncio veio de novo, mas dessa vez não era pesado, Era um silêncio de quem entende o trampo, o corre, a vida dura.

Sob O Morro Onde histórias criam vida. Descubra agora