PEREIRA: 😶🌫️
Acendi um cigarro e me encostei na moto, soltando a fumaça devagar, O gosto amargo na boca nem chegava perto do nó que eu sentia no peito.
Hellena tinha ido embora pisando firme, sem olhar pra trás, E eu fiquei ali, parado, sem saber se corria atrás dela ou deixava as coisas esfriarem.
"Tu quer ir, vai, Mas não volta dizendo que eu não tentei."
Minha própria voz martelava na cabeça, Porra, eu queria ter dito outra coisa, Mas o quê? Que eu ia mudar? Que ia ser o tipo de cara que ela queria? Eu não era, E talvez nunca fosse.
Passei a mão no rosto e chutei uma lata no chão, Tava puto, mas não com ela. Comigo, Com essa merda toda.
Eu sabia que Hellena era diferente, Desde o começo, ela me olhava sem medo, sem aquela desconfiança que todo mundo tinha quando sabia quem eu era, E foi isso que me fez querer ela, Mas querer não era o suficiente, né?
Porque no fim das contas, eu ainda era o cara que ela não podia confiar totalmente.
Eu não tinha feito nada, A mina olhou? Olhou, E daí? Eu nunca precisei provar nada pra ninguém, mas com Hellena era diferente, E essa porra me assustava.
Joguei o cigarro no chão e pisei nele, irritado.
Peguei o celular, abri o chat com ela e fiquei ali, encarando a tela, A mensagem dela ainda era a última.
Podia mandar um "volta aqui", Podia chamar ela pra conversar, Podia engolir meu orgulho e admitir que talvez eu tivesse errado.
Mas eu só bloqueei a tela e guardei o celular no bolso.
Eu não sabia se conseguia ser o que ela queria.
Mas, caralho... como eu queria tentar.
A moto rugiu alto quando arranquei dali, O vento cortava meu rosto, mas nem isso ajudava a esfriar a cabeça, Minha mente ainda tava no olhar de Hellena, na forma como ela foi embora sem olhar pra trás.
Acelerei mais, Era melhor me ocupar com outra coisa do que ficar remoendo o que eu não podia mudar, Eu já sabia pra onde ia.
A quebrada tava como sempre, barulhenta, cheia de movimento, O cheiro forte da erva se misturava ao diesel da rua, ao suor dos caras que trampavam ali, A noite tava só começando.
Biro tava encostado na parede, camisa do Flamengo, corrente grossa no pescoço, tragando um cigarro de palha enquanto observava o fluxo, PH tava do outro lado, mexendo no celular, mas ergueu o olhar quando me viu.
Biro: Aí, achei que cê ia brotar só no final do mês, viado - Biro debochou, batendo a mão na minha.
PH: Deu ruim com a Helleninha, né? - PH nem precisou perguntar, Só de olhar pra minha cara, ele já sabia.
Bufei, pegando o papelote que Biro me passou, Rasguei rápido, sem enrolação, e logo tava sentindo o gosto amargo da parada subindo pelo nariz, Uma ardência, uma brisa vindo devagar, levando um pouco do peso que tava no peito.
Biro: E aí? - Biro insistiu.
Pereira: Foda-se - respondi, encostando na parede e passando a mão no rosto.
PH soltou uma risada sem humor.
PH: Esse "foda-se" aí já diz tudo.
Biro se aproximou, pegando um baseado do bolso e acendendo com calma, Ficou me olhando de canto, como se estudasse cada movimento meu.
Biro: Vou te contar uma coisa, Pereira, Uma história que ninguém aqui sabe, Não sou esses cara foda se história, Mas vou te passar uma visão que tá transparecendo pra mim.
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Sob O Morro
Fanfiction📍Rio de janeiro, Rocinha +18 Eu não sonhei em ser dono de morro, só fui vivendo, Quando vi, já tava com fuzil no ombro, nome na boca da polícia e respeito na quebrada, Aqui, quem anda devagar vira alvo, quem ama demais vira fraqueza... mas mesmo no...
