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BIRO: 🤑
4 MESES DEPOIS:

Observo a favela da laje, A mesma correria de sempre, Os menor na função, a mulherada descendo pro mercado, os rádio comunicador chiando, moto subindo e descendo... o movimento nunca dorme, Aqui é 24 por 48.

Acendo um fino e puxo o fôlego devagar, sentindo a fumaça se misturar com o peso nos meus ombros, Hoje tem festinha lá, dessas de descobrir o sexo do bebê, Balão, confete, essa porra toda que eu nunca liguei muito, Mas ela tá feliz, e quando a mulher tá feliz, a casa fica em paz.

Confesso que não tô ansioso como achei que estaria, Na real? Tô mais quieto, mais calado, Com a mente pesando mais que colete em dia de troca, Era pra eu tá pulando, pensando se vai vir meu menor pra correr comigo ou minha princesa que vai virar meu ponto fraco, Mas não é preferência... é preocupação mesmo.

Esses dias aqui na favela tá foda. As invasões tão vindo de todo lado, CV tentando tomar o ponto, polícia descendo sem aviso, gente da própria quebrada trocando de lado por mixaria, Já tomei tiro que não era nem meu, e ainda tô de pé, Foi Deus mesmo, Só Ele pra explicar.

Às vezes eu penso se esse mundo é lugar de criar filho, Mas na mesma hora eu lembro que foi aqui que eu cresci, Que o morro também dá lição, dá visão, dá base, Eu só quero estar vivo pra ensinar, Mostrar pra minha cria que dá pra ser cria e ser livre, Que o nome da gente pode ecoar por mais do que só na boca dos alemão.

Dou mais uma tragada, olho pro céu nublado e penso, "Será que Deus ainda escuta voz de homem errado?" Porque se escutar, Ele tá ouvindo agora.

Desço da laje com o coração pesado e o semblante firme, Se tem uma coisa que aprendi na favela, é que homem de verdade sente, mas não abaixa a cabeça, E hoje, mesmo com tudo desmoronando em volta, eu vou sorrir por ela, Pela mãe do meu filho, Pela minha base, Porque se eu cair... tudo cai.

PH: Aí, cuzão, tá rolando uma confusão perto da contenção, os cara tá apontando arma na cara de morador. - Franzi a testa e encarei ele sério.

Biro: Faz um favor, PH? - Eu falo, olhando pra ele, Ele me encara confuso, sem entender muito bem o que eu queria dizer. - Resolve essa porra aí, vou ter que passar em outro lugar.

PH: Qual foi? Tá tudo suave, Irmão? - Ele tenta disfarçar, mas dá pra ver que ele tá ligado no que tá rolando. - Eu rio pelo nariz, sem graça.

Biro: Vai ficar PH, vai ficar... - Dou uma batida nas costas dele, só pra dar aquele toque de que o assunto já tá fechado, Ele não responde nada e entra na sala.

Eu sigo meu caminho pra fora da boca, o clima lá fora ainda tenso, mas eu tava decidido, Montei na moto e segui em direção à minha casa, a favela tava numa calma estranha, Quando cheguei, parei na frente de casa e subi.

Entrei no quarto, me joguei na cama, tentando controlar a respiração, Érica entrou logo depois, com aquele olhar de quem tá percebendo que algo não tá certo, mas sem saber exatamente o quê, O silêncio pesava no ar, e eu só fiquei ali, esperando ela falar alguma coisa, ou até eu mesmo dar uma explicação pra ela, porque era isso que ela queria, mas nada saiu.

Érica: Biro... - ela se aproximou devagar, A barriga já bem marcada no vestido leve que usava. - O que tá acontecendo com você? Desde que voltamos de Angra, você tá diferente.

Não consegui olhar nos olhos dela, Mentir olhando pra Érica era impossível.

Biro: Nada demais, os mesmos problemas de sempre, Tô controlando tudo, fica suave. - Levantei devagar. - Mais tarde vai dar tudo certo, nada vai estragar essa noite. - Dei um beijo leve na testa dela, tentando convencer mais a mim do que a ela.

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