ÉRICA: 🤍
4 MESES
"Amor não se mede, se sente. Mas a ausência dele pesa em cada suspiro."
Tem dias que a casa parece grande demais, Outros, pequena demais pra conter o que sinto.
Faz quatro meses que saí do morro, Quatro meses que Biro foi preso naquela troca intensa que até hoje revira meu estômago, Quatro meses que a vida deu um giro violento e eu vim parar aqui, em Angra dos Reis, longe do fogo cruzado, mas mais perto de mim.
Tô com nove meses de gestação, Nove meses carregando o nosso menino, o Yuri, no ventre... e o Biro no pensamento.
Está aqui com a Mayara, que tem sido minha fortaleza, Emilly e Renan, correm pela casa, não tem 1 ano e já correm por essa casa toda, e às vezes até chutam minha barriga sem querer, e a gente ri, Porque nessa casa, a gente aprendeu que rir é resistência.
Hellena, também tem sido minha fortaleza, mesmo com tudo que aconteceu, a força que ela tá me dando não tem como descrever, Ela tá dormindo no quarto menor, com as roupas dela jogadas pra todo lado, mas com o coração inteiro pra me ajudar, Ela me passa chá, ajeita travesseiro nas costas, até corta fruta em formato de coração só pra me animar nos dias que choro calada.
PH, mesmo com tudo que tá acontecendo no morro, não me abandonou a gente, Ele colocou mais dois seguranças fixos com a gente, Rato, que fica no carro parado ali perto da padaria, O outro é o VT, que ronda a casa e dorme no quartinho do lado de fora, Eles não falam muito, mas já sei que gostam de pão de queijo quentinho e café forte, E sei que fariam qualquer coisa se alguém tentasse nos tocar.
Mas segurança física é só uma parte da coisa, E o que me corrói não é isso, É a falta, A falta dele.
O Biro não pegou nem no ultrassom mais recente, Não escutou o Isaac mexendo forte quando escuto música, nem sentiu os chutes nas madrugadas, Nem os sapatinhos que Hellena me ajudou a organizar por cor.
E eu sinto, Sinto ele em cada batida que o Isaac dá no meu ventre, Sinto nas músicas que tocavam lá em casa e aqui ainda ressoam baixinho no rádio da cozinha, Sinto no jeito que olho pro portão achando que ele vai entrar, sorrindo torto, dizendo que fugiu só pra ver o filho nascer.
Tem dias que falo com ele na mente, como se ele me ouvisse.
“Você ia amar o jeito que o Isaac vira quando escuto tua voz nos seus áudios antigos, É como se ele soubesse que é seu pai.”
Às vezes me pergunto se ele tá bem, Se comeu, Se conseguiu dormir um pouco na cela abafada, Se ainda guarda o papel com o nome Isaac que PH falou pra ele.
Mayara diz que o tempo passa rápido, Que quando o Isaac nascer, tudo vai ganhar outra cor, Que um dia ele vai conhecer o pai e entender a luta, E eu acredito... ou tento.
Mas enquanto isso não chega, escrevo no caderno que deixei em cima da cômoda, Um diário só pro Yuri, Contando do mundo, de mim, do pai dele, De como ele é guerreiro, De como o amor da gente foi tão forte que resistiu a tiro, a boato, a medo, a prisão.
“Filho, seu pai não tá aqui agora, mas ele te ama como ninguém, E cada lágrima minha carrega um pedaço dele, Você já nasceu sendo amor em tempos de guerra.”
Mesmo que o mundo desabe aos meus pés, escolho parecer forte, Não porque seja fácil, mas porque neste momento cair não é uma opção, Preciso ser firme, ainda que tudo dentro de mim grite dor, Faço isso por ele, Pelo Isaac, Ele merece crescer cercado de amor, de força e de esperança, mesmo que, por dentro, eu esteja em pedaços.
[
...]
"Mesmo protegida por muros e homens armados, a gente nunca tá totalmente a salvo quando a maldade se disfarça de zelo."
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Sob O Morro
Fanfiction📍Rio de janeiro, Rocinha +18 Eu não sonhei em ser dono de morro, só fui vivendo, Quando vi, já tava com fuzil no ombro, nome na boca da polícia e respeito na quebrada, Aqui, quem anda devagar vira alvo, quem ama demais vira fraqueza... mas mesmo no...
