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MANCHA:  🫟

É estranho como a vida tem dessas ironias…
Eu que fui criado no meio do descaso, hoje tô preso não por causa de polícia, mas por causa de homem, Por um vacilo, Um vacilo que nem me arrependo, e me cobrou caro.

Desde pequeno, o mundo me tratou como descartável, Nasci no subúrbio de Duque de Caxias, num barraco de madeira que mais vazava do que protegia, Minha mãe era uma mulher dura, não por escolha, mas pela vida, Não sabia demonstrar amor, só sabia sobreviver, Meu pai, bom, ele passou em casa pra me deixar o nome e nunca mais voltou, Cresci ouvindo mais tapas do que conselho, mais grito do que carinho.

Com uns 9 anos, comecei a passar mais tempo na rua do que em casa, Lá pelo beco da 14, aprendi a me virar, Primeiro foi vendendo bala, depois descolando coisa pros mais velhos, Quando vi, tava levando recado de um lado pra outro, carregando sacola sem perguntar o que tinha dentro, Não era bicho burro, Só não tinha opção.

O crime não foi escolha, foi caminho, E nesse caminho, conheci Biro, E depois PH.

Biro foi o primeiro cara que olhou pra mim como homem, Me chamou de canto e disse. “Tu tem olho ligeiro, Aprende a ouvir mais do que falar.” Eu aprendi, PH me deu confiança, me colocou no bonde com os caras de frente, Me ensinaram a fazer dinheiro sem chamar atenção, a andar com postura, a respeitar os corre.

Eu era o mais novo da tropa, mas era visão, Nunca precisei me meter em merda, Cumpri o que tinha que cumprir, subi com lealdade, Biro dizia que eu tinha futuro, PH dizia que eu era sangue bom, um pivete que aprendeu rápido demais, Eu via nos olhos deles um bagulho que eu nunca vi em ninguém. confiança.

Mas eu vacilei, e como eu disse, não me arrependo, mas papo reto, querendo ou não,
Não foi porque eu quis, Juro por tudo, Mas a Érica…

A Érica é diferente, Não é só bonita, é presença, Sabe quando a pessoa entra no cômodo e o ar muda? Era assim com ela, Eu tentava não olhar, juro que tentava, mas ela era minha própria tentação, Mas ver ela grávida, com aquele barrigão, a mão no ventre, aquele olhar de mulher forte… sei lá. Me fazia lembrar que o mundo ainda podia ter alguma ternura, tive vontade de ser pai na hora, até o filho chamei de nosso, E talvez por isso eu confundi as coisas.

Nunca cheguei nela completamente, Nunca toquei, não porque não queria, Mas na vez que tava pronto pra tocar, se ela deixasse né, o filho da puta do PH viu, encheu meu ouvido de merda que entrou em um e saiu no outro, mas aquele filho da puta vai pagar pela coronhada, senti dor de cabeça por um bom tempo.

Faz quase cinco meses ou Seila, nem sei mais contar essa porra, eu tava ligado que provavelmente iria ficar aqui até morrer ou até Biro voltar, mas pra ele é game over na certa, pra sair de lá só uma fuga bem armada ou comendo o cu do juiz.

O quartinho é apertado, tem só um colchão no chão, um ventilador velho que mais faz barulho do que refresca, e uma janelinha que dá pra uma parede, A comida chega todo dia, na moral, Ninguém me bateu, ninguém me xingou, além do PH naquele dia, Mas também ninguém me olha nos olhos.

Tô preso com meus pensamentos, Com a culpa, E o pior? Eu não tenho raiva, Eu entendo, PH me tratava como cria, E eu dei margem pra desconfiança, Isso no nosso mundo é sentença, gosto do PH abeça, sempre fortaleceu, mas ele vai pagar a coronhada.

A noite cai em Angra, o som do mar é o que me acalma, Eu encosto na parede e fico pensando se um dia eles vão abrir essa porta e dizer que acabou, Ou se vão abrir pra me apagar, De verdade? Eu merecia qualquer um dos dois, Mas ainda tenho esperança de que a lealdade que mostrei antes pese mais do que o erro que quase cometi.

[...]

Acordei com o barulho da tranca girando, Era raro alguém abrir a porta daquele cubículo onde eu tava jogado fazia dias, A luz invadiu o quarto abafado e úmido, me cegando por alguns segundos, Ainda deitado no colchão sujo, pisquei algumas vezes até reconhecer a silhueta na porta.

Sob O Morro Onde histórias criam vida. Descubra agora