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PEREIRA: 😶‍🌫️

Faz um mês e pouco que deixei o morro pra cuidar da minha coroa, Na minha cidade natal foi foda, relembrei tantas paradas que nem deu vontade de ir embora, E hoje, de volta na favela parece que eu nunca saí.

O cheiro do asfalto quente, do carvão queimando na laje de alguém, das especiarias de dona Jura no alto da rua vinte e sete, Cada viela grita meu nome, Cada beco é um filme, Mas nada me arrebenta mais que essa saudade batendo seco no peito.

Subi devagar, Os cara já sabia, O rádio apitava “Pereira tá voltando.” Biro respondeu com aquele tom marrento de sempre.

Biro:Fala pra esse safado que é melhor trazer presente. — PH já mandou no embalo.
PH: Se não vier com saudade da boca, volta.

Peixinho, meu irmão, minha quebra de guerra, foi o primeiro a me esperar no alto, A rua tava em festa, mas minha alma ainda tava enterrada lá na casa da minha coroa, Ela é o motivo de tudo.

Minha mãe nunca foi de reclamar, Forte igual cimento grosso, Criou eu e minha irmã sozinha, ralando como doméstica em casa de madame no Leblon, engolindo choro pra sorrir em casa, Mas o tempo cobra, E cobrou caro, Minha irmã nunca se deu o trabalho de visitar minha mãe depois de arrumou um namorado, hoje mora até fora do país e não dá as caras, pago uma moça pra cuidar da minha mãe, foi foda quando recebi a notícia da doença dela.

Câncer no pulmão.

Essa porra levou o ar dela, levou a risada, levou as forças, Eu vi a mulher mais braba que conheci virando silêncio numa cama de hospital do SUS, dividindo oxigênio com mais dois.

Viajei na calada, Não contei pra Hellena o porquê de primeira, porque eu sabia que ela ia sofrer junto, Ela tem esse coração grande demais, depois tive que abrir o jogo, não dá pra esconder as coisas de quem você ama, E eu... tava tentando segurar o meu coração em pedaço.

Mas agora tô aqui, subindo a viela sete, onde o poste pisca e ninguém arruma, O barulho da rua é música, criança soltando pipa, os menor no corre vendendo os três por dez, os fogos estourando lá do lado da boca, Peixinho tava comigo o caminho todo desde que cheguei aqui, mas nada bate mais que aquele abraço de cria que ele me deu.

Peixinho: Eaí cachorro, Tá com a cara abatida, hein, Hellena vai arrancar tua cabeça. — Neguei com a cabeça e um sorriso sem mostrar os dentes.

Pereira: Ela já arrancou meu juízo, o resto é lucro. — ri, mas o peito ainda doía.

Peixinho: Tá todo apaixonado aí né vagabundo? Deve ter sentindo uma saudade do caralho. — Concordei com um suspiro.

Pereira: Saudade é pouco Matheus, E não vem dizer que estou apaixonado não porra, esqueceu que você só faltou babar a Letícia em Angra dos Reis? — Ele passou a mão no cabelo e riu.

Peixinho: O assunto aqui é você irmão, me deixa fora disso. — Ala, o vagabundo tava tímido.

Pereira: Ih ala, Qual foi de você Peixinho? Todo tímido? Marra vagabundo. — Bati de leve na sua cabeça.

Cheguei na boca, falei com os caras que fazia contenção e os de dentro que trabalhava, subi pra laje onde nós sempre fica, Biro tava encostado com PH fumando um, escorado na mureta, olhando a vista como se fosse dono do mundo.

PH: Olha quem voltou, o filho pródigo da quebrada. — PH tirou onda.

Biro: E aí, Pereira, trouxe a paz ou a guerra? — Biro riu, apertando minha mão com força e depois me puxou pra um abraço.

Pereira: Só trouxe saudade, Mas vamo ver o que tem pra hoje. — Olhei a visão que tava linda, me lembrei da minha mina.

A Hellena ainda não me viu e provavelmente nem sabe que cheguei, não avisei a ela que tava vindo, Tô juntando coragem, A saudade dela é um negócio que me deixa tonto, Me pego lembrando dela mexendo no cabelo, daquele olhar de quem entende até quando fico mudo, Mermão, tem coisa que nem tiro de fuzil machuca tanto quanto ficar longe de quem faz a tua alma respirar.

Sob O Morro Onde histórias criam vida. Descubra agora